4.10.06

EU NÃO EXISTO SEM O PÃO DE AÇÚCAR

MARIZA DE ALMEIDA REBOUÇAS



Rio, 20 de janeiro de 1998
Querido Dieter



Você entrou naquele avião e eu sabia que o nosso caso de amor estava acabado. Só o caso, o amor não. Vou seguir amando você enquanto respirar, e, se houver vida outra além desta conhecida, creia, o meu amor ainda será você. E os borrões, redesenhando as rosas desse lindo papel de carta que você me trouxe, são lágrimas sobre tinta, testemunhas líquidas e certas do sofrimento que experimento ao decidir permanecer no Brasil.

Dieter, em sua sabedoria germânica, diga-me como vou viver no seu sóbrio país? Dieter, amor meu, como se planta um coqueiro em Berlim? Porque aqui estou como um coqueiro solidamente plantado nas areias asfaltadas de Copacabana onde nos conhecemos, lembra? Fazia um calor dos diabos mesmo nas primeiras horas do dia, eu caminhando descalça nas bordas de mar e areia, exercício lúbrico e eficiente, músculos, tendões, preguiça, um caldo só de bem-aventurança anunciando o privilégio renovado de estar viva em Copacabana, no verão, debaixo do sol, no Rio, meu Rio, meu reino.



Sabe, amor, carioca não emigra. Se emigra, não é: nasceu. Carioca perde a graça se longe está. Os feitiços com que me enfeitas, bobão, fervilham a quarenta graus no caldeirão desta cidade onde o caos se sente em casa e o bem e o mal usam bermudas de janeiro a março. Logo ali, em São Paulo, perco os poderes.

Amor, eu sou daqui, não moro apenas.

Lembra, te levei ao Grajaú, naquelas ruas ladeadas de tamarindeiras carregadas de sementes azedas e doces ao mesmo tempo? Então, te mostrei meu berço. São tantas as esquinas onde dobrei minha vida, a caminhada trabalhosa da zona norte à zona sul, ultrapassando a alagada Praça da Bandeira e, além do Santa Bárbara, a brisa e o cheiro do mar. Gaivota urbana, no concreto fiz meu ninho, que peixe se compra na feira. Tem sido assim, acordar cedo, andar ao longo da calçada, o horizonte ao alcance da mão, o verde nos limites do azul e os dourados da manhã que explode. Às vezes chove, e antes do céu virar em prata, aparece o arco-íris. Não falho um dia. Já vi todas as ressacas encolhendo o Arpoador, conheço os andarilhos diários e os bissextos, sigo acompanhada do costume, quase reconheço as raivosas buzinas que morrem de inveja deste ócio. Injustiça. Depois do meio-dia percorro repartições públicas vendendo artigos do Paraguai. Muambeira, sim, com muita honra. Tenho butique em casa, duas coisas não me faltam: dinheiro para pagar as contas e gente pra conversar. Você sempre reclamou de falta de privacidade lá de casa, a freguesia chegando fora de hora atrás de um presente, uma roupa, os improvisos além do entendimento desse seu cérebro ordenado.



Dieter, tem muambeira na Alemanha?
Tenho visto saudade na tua impaciência. O desconforto substitui o prazer, tá um calor danado, né?
Dieter, meu amado, lembra do princípio, eu voltando do mar, você chegando do hotel, estendendo sem jeito a toalha na areia, o sol do Rio queimando a tua pele conservada virgem pelo sol de Berlim? Tive pena da perda inocente dessa brancura e te emprestei meu filtro solar fator de proteção 30, caríssimo, importado. Até passei nas suas costas, generosamente, saboreando os relevos desses músculos rijos, que não sou de perder o instante.

Dieter, amor da minha vida, lembra como foi fácil passar da praia ao quarto, sala, banheiro e cozinha na calma Cinco de Julho? É que aqui sou e serei a dona de tudo, faço e desfaço. De posse de mim, tomei você. Trouxe o sonho pra casa.



E agora você quer voltar para si mesmo, é normal. Quer ser o senhor de tudo, na neve de todos os invernos, nas águas dos degelos, não sei, fico imaginando, eu que jamais vi a neve.

Dieter, meu amado, conhecemos a felicidade nesses meses quando enovelamos um inglês alinhavado, quase supérflua comunicação verbal, porque no mais das vezes usamos a linguagem da química dos corpos, da rotina de café da manhã e roupa lavada. Quanta paixão experimentamos, as diferenças que ora nos afastam, antes nos atraíam. Ouro e cobre, nossas bandeiras se embolando, verde, azul, vermelho, preto e o amarelo comum. Era lindo. Você doido por mim, eu louca por você. No travesseiro, nossos tons complementares, meus cabelos escuros, os teus tão louros - ainda que ralos. A noite nos meus olhos, nos teus a clareza azul, espelhos de uma raça eugênica e desenvolvida. Apesar que higiênica sou eu, gosto muito mais de tomar banho que você.



Mas nada é para sempre, seu trabalho no país acabou, o sortilégio também. Outra vez peguei teu olhar vagando, indaguei, é o calor , despistaste. Mentira, era o começo da volta, o canto das valquírias, umas chatas. Você muda, como se outro virasse. Ledo engano, você apenas retoma posse de si: Dieter Uhl.

Ditinho, meu bem, devolvo a passagem, mas guardarei num sacrário as memórias da nossa aventura. Fomos tão felizes, né?

Adeus, meu gringo, e perdão. Ainda que eu pudesse um dia suportar o frio e a neve aninhada nos teus braços, à luz branda de uma lareira elétrica, saboreando beijos e chocolates, ainda assim eu estaria apenas sobrevivendo.

É que eu não existo sem o Pão de Açúcar.

Eternamente sua,
Lucinha


Conto publicado originalmente sob o título "Dieter" no livro A Rainha da Hora. O livro (que eu recomendo) pode ser adquirido diretamente com a autora. Clique no marcador abaixo para ler outro texto de Mariza de Almeida Rebouças. Fotos do Pão de Açúcar de Ivo & Mi.

9 comentários:

Cris Zimermann disse...

Bom dia, Ivo!

Pois é, já imaginou quantos 'Ditinhos' vão e vem pelo Rio, pelo nosso Brasil? Pelo menos o meu Ditinho até o momento ficou por aqui rsrs. Mas fala todo dia de voltarmos a morar lá...

bjsss, apareça no meu blog tb ;)

Erik disse...

Ah, amigo, é verdade, não se pode falar em Rio de Janeiro sem se falar no PdA.
O blog está cada dia melhor, meus sinceros parabéns. (enviado por e-mail)

Léa Madureira G. Lima disse...

Mariza amiga, Nobel contista!

Houvesse um Nobel pra contos, este seria finalíssimo. Entre cariocas, principalmente, a empatia, o "molho" característico. Um presente à cidade! Riqueza vocabular, ambiência e tantos dados: a verdadeira Literariedade! Chegamos a sentir o cheiro do mar, os 40º no rosto, do Grajaú à Pça. da Bandeira até o Arpoador. E quase a tremer com a possibilidade do amor eterno! Encaixe perfeito com as imagens do Ivo! Carta de amor que, junto ao Pão-de-Açúcar, ao Corcovado, sem falar do Maracanã, honram esta cidade!
Um monumento, incluído em outro monumento que admiro e sempre recomendo, A Rainha da Hora.
Mais uma vez,
P A R A B É N S ! ! !

Helio Brasil disse...

Ivíssimo:
Maravilhoso o conto da Mariza. Diz bem o que é ser/estar carioca.
As fotos do Catumbi também são encantadoras.
Parabéns!
(enviado por e-mail)

Lucia Pinto disse...

O texto da Mariza é "tudo de bom" ou tdb como falam os cariocas antenados. (enviado por e-mail)

Léa Madureira G. Lima disse...

Oi, Mariza!

Talvez pareça exagero, mas é importante que se diga a verdade.

É preciso que se divulgue a boa escrita, a Literatura. O blog do Ivo, além do primoroso contexto (fotos+textos+informações) presta esse excelente serviço.

Sinto falta de vocês na Oficina do Prof. Ivan C. Proença, onde todos recebemos este grande impulso. E, nesta oportunidade, firmo o meu reconhecimento. Se, como diz o prof., Oficina não forma escritor, mas encurta caminho, talvez o meu ainda seja muito longo. E isso é que é BOM!

Parabéns, colegas!

Léa Madureira

dolores disse...

Dear Ivo,
Mais do q um monumento do Rio, e um simbolo do Brasil. Geralmente as fotos do pais estao associadas ao Pao de Acucar e ao Cristo Redentor, como reconhecimento da obra divina nessa cidade maravilhosa!
E o belo conto de Mariza me faz duvidar, se os cariocas que encontrei aqui, sao mesmo autenticos...
Parabens por manter o blog com a mesma qualidade!

Toronto- Ca

Anônimo disse...

Caro Ivo:

O seu blog é um descanso para as nossas almas agitadas...

O Rio é poesia sim, e das boas, apesar das mazelas da vida...

Os três minúsculos dias que passei (de raspão) por aí foram suficientes para me apaixonar. Ah, entendo a Mariza! Eu subi o Pão-de-açúcar, numa tarde de abril deste ano. Estava "só" com os muitos ali igualmente felizes pela beleza em volta. O Pão me presenteou a imagem mais linda que já vi numa tarde.

Mariza, um caso sem fim de amor, um caso de amor sem fim...

Luiz Diogo - Teresina - PI

Esther Largman disse...

Gostei muito do texto de Mariza, ela escreve muito bem. Fomos colegas na Câmara, no Ivan e nos perdemos de vista. (enviado por e-mail)