11.5.06

UM DOMINGO

PAULO MENDES CAMPOS


Diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, eu nada tinha a fazer, nem a pensar, nem a sofrer. Era domingo. Reconhecia as coisas, a cor da água, que parece olho baço, a cor da relva, a cor do eucalipto, a cor do firmamento, que era uma cor de líquido azul. Estava sentado com os olhos abertos, num banco de pedra. Se um pardal esvoaçava, virava o rosto para vê-lo e amá-lo melhor. Acompanhava a marcha comercial das formigas. Sorria às crianças que passavam com amas pretas vestidas de branco. Um peixe resvalou à flor da água: do céu baixou um raio de sol e feriu o dorso do animal; o reflexo veio em linha reta até meus olhos, e inventei, então, a teoria dos triângulos: há triângulos radiosos em todos os espaços. Sol, peixe, homem. Pois nunca ninguém está só diante duma coisa, existindo sempre a testemunha que, participando de nosso oaristo [diálogo entre esposos ou amantes], completa o nosso diálogo. Tudo no mundo é trindade.


É bom que um homem, vez por outra deixe o litoral misterioso e grande, querendo contemplar uma lagoa. O mar, este é terrível e resiste à nossa sede com seu sal profundo. Sim, são belas as palavras do mar: hipocampo, sargaço, calmaria. Oceanus. No entanto, uma lagoa, muda e fechada, compreende as nossas pequeninas desventuras, o efêmero que nos fere. Nenhum poeta seria tonto a tal ponto de escrever ao lago uma epopéia, uma saga. Nele podemos esquecer apenas os nossos naufrágios.


Do lugar em que estava, o Cristo se erguia de perfil. As montanhas formam um alcantilado que os aviões de São Paulo cruzam com uma elegância moderna. Amo essas montanhas uma a uma, com exceção apenas do Morro do Cantagalo, cujo volume é desagradável e pesado.


O domingo se aquietara, quando passou zunindo um automóvel vermelho. O ar continha cubos translúcidos e dentro deles revoavam urubus. São as aves mais feias do céu mas têm um belo vôo alçado e tranqüilo.



Um pequeno barco a vela seguia o caminho invisível do vento. Depois, surgiram outros barcos, todos brancos e silenciosos. Acrescento que nada mais bonito existe do que um barco a vela. E havia também as casas dos pobres do outro lado, construções admiráveis, no ar. O milagre da pobreza é sempre o mais novo e o mais cálido de todos os milagres. Todas as palavras já foram ditas sobre a miséria mas a alma dos ricos é cheia de doenças.


O sol foi acabando. Levantei-me do banco e fui embora. Pensando: há domingos que cheiram a claustros brunidos pelo esforço dos noviços. Aquele, entretanto, tinha um perfume de outono.



Paulo Mendes Campos, poeta e prosador, nasceu em Belo Horizonte em 1922 e morreu no Rio de Janeiro em 1991. "Pertenceu à geração de cronistas que elevaram o gênero a um nível de excelência" (Affonso Romano de Sant'Anna).

20 comentários:

Anônimo disse...

Olá Ivo,
Seu blog é uma verdadeira ode ao noso Rio de Janeiro.
Inspirador. Vou dar uma passeada na Lagoa agora mesmo. Ontem de manhã vi um gavião espetacular lá.
Ricardo W

Mariza de Almeida Rebouças disse...

Ivo, amo seu blog.
Os grandes cronistas de outros tempos levavam vantagem sobre os de nossos dias justamente porque não viveram as agruras de hoje. Podiam ver e ouvir o belo, como Paulo Mendes Campos. Ou prever a catástrofe, como Rubem Braga na famosa "Ai de ti, Copacabana". Rogel Samuel não pode ver, só lembrar, o que deixou de existir, mas seu excelente texto revela que continuamos, apesar de tudo, profundamente enraizados nesse Rio tão amado.

Erik disse...

Bem, Paulo Mendes Campos dispensa comentários, né?
O blog está BÓTIMO, cada vez melhor parabéns. (enviado por e-mail)

Marilia Mota disse...

Oi Ivo,
pus a terceira foto como fundo no meu computador. Está linda, linda!
Boa escolha a do Paulo Mendes Campos. Sou fã da mineirada dessa geração. Não tem como mineiro pra amar o Rio. Eu que o diga!
Bjs

Jonas Prochownik disse...

Ivo, um forte abraço e continue o belo trabalho que vc. esta fazendo. Bom domingo do amigo Jonas.

Dolores disse...

Orgulho-me da minha mineirice pricipalmente qdo leio meus poetas e prosadores, eles têm um jeito gostoso de dizer as coisas e é como se eu os estivesse ouvindo.
E qdo pude ouvir e visualizar c as belas fotos inseridas ao texto, senti-me calma e preguiçosa à beira da lagoa.
Thank you! (enviado por e-mail do Canadá)

Cláudia disse...

Parabéns pelo blog.
Dei uma olhada e está bem interessante. (postado no tópico "Av. Rio Branco: 100 Anos" da comunidade Rio Antigo do Orkut)

Fran disse...

Olá! Gostei do blog!

voltarei sempre!

Márcia(clarinha) disse...

Emoção em cada imagem,agrado em cada palavra.
Sou do Rio,carioca da gema,amante de gente que ama e se orgulha dessa cidade.
Parabéns pelo seu espaço encantado.
Lindo dia,
beijossssssssss

Vinicius Factum disse...

Olá, Ivo! Tudo Bem? Olha, tenho uma proposta lá que pode ser interessante para aqui... Não, não vou contar agora. Dê uma passadinha lá pra ver.
Ah, esse blog já faz parte do "Vale a pena".
Abçs!

Anônimo disse...

Paulo estou fazendo um curso pra prestar o concurso do MAPA e durante uma aula surgiu uma duvida, minha professora colocou a seguinte questao:
o autor, neste domingo, diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, experimena:
a) tristeza e melancolia
b) entusiamo e alegria
c) tranquilidade e admiração
d) felicidade completa

Esta foi a questão e conforme minha professora a resposta certa é ¨felicidade completa¨, mas conforme minha compreensão do texto, a resposta correta seria ¨tranquilidade e admiração¨, a explicação que me foi dada, seria que, devido ao escritor estar com a mente vazia, sem nada a fazer, pensar ou sofrer, este seria como um momento de meditação, então este seria um momento de felicidade completa, mas de acordo com minha compreesão acredito que o fato de nada a pensar, fazer ou sofrer, indica que ele está num momento simplesmente de tranquilidade, isso para mim nao indica nem felicidade e nem tristeza e a admiraçao seria pelo simples fato da simplicidade do dia, ter feito ele perceber que as coisas simples quando observadas, mesmo sem querer, conforme o proprio texto diz ¨estava sentado com os olhos abertos...¨ou seja admirou as coisas simplesmente por estar aberto, e no final algo deve remetê-lo há algum período de sua vida onde ele acreditou que aquele domingo ¨tinha um perfume de outono¨.
Portanto gostaria que se possível, me enviasses um e-mail descrevendo a tua opnião a respeito desta questão.
Desde já agradeço.
Cátia Maria Jorge Bassini
catiabassini@bol.com.br

L@is*!* disse...

Cátia Maria Jorge Bassini , queria que você me passasse todo o exercio dessa cronica " Um domingo " de Paulo mendes e se for possível com as resposta certas (ou o gabarito ).
Desde já agradeço !

Fernanda Rodrigues disse...

Alguém me dar todas as resposta por favor desse texto??

Fernanda Rodrigues disse...

Alguém me dar todas as resposta por favor desse texto??

Ivo Korytowski disse...

Para dar as respostas preciso das perguntas. Quais são as perguntas?

Fernanda Rodrigues disse...

1:Diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, o autor se põe a contemplar a paisagem levado por:
a)um domingo quieto e tranquilo
b) uma despreocupação material e mental
c)uma necessidade interior
c)Uma curiosidade indizível

Fernanda Rodrigues disse...

2.O que fez o autor "descobrir" a cor da água, a cor da relva, a cor do eucalipto, a cor do firmamento, foi:
a) A Lagoa
B)a necessidade de deixar o litoral
C)Ser um dia em que nao se trabalha
d) estar de olhos abertos, sentado num banco de pedra

Fernanda Rodrigues disse...

3.O autor,neste domingo, diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, experimenta
a)Tristeza
b) entusiasmo e alegria
C) tranquilidade e admiração
d)Felicidade

Fernanda Rodrigues disse...

Me ajudar

Ivo Korytowski disse...

Fernanda, essas perguntas dos professores são meio capciosas, algumas acho que nem os próprios autores dos textos saberiam responder. Mas você tem que ler a crônica calmamente, entender, que assim você acha as respostas. Por exemplo, bem no início está escrito: "Diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, eu nada tinha a fazer, nem a pensar, nem a sofrer. Era domingo. " Isto há responde à primeira pergunta. Logo depois está escrito: "Reconhecia as coisas, a cor da água, que parece olho baço, a cor da relva, a cor do eucalipto, a cor do firmamento, que era uma cor de líquido azul. Estava sentado com os olhos abertos." Aqui você tem a resposta da segunda pergunta. E assim por diante, as respostas estão lá no texto. Depois está escrito que "Se um pardal esvoaçava, virava o rosto para vê-lo e amá-lo melhor. Acompanhava a marcha comercial das formigas. Sorria às crianças que passavam com amas pretas vestidas de branco." Ou seja, o autor está feliz. Está aí a resposta à terceira pergunta. É só ir lendo o texto com atenção que você vai achando as respostas, é uma caça ao tesouro.