17.4.09

HOMENAGEM A TIRADENTES

COM FOTOS DA SUA ESTÁTUA DIANTE DO PALÁCIO TIRADENTES (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO)


Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
que não passava de Alferes
de cavalaria!

“Faremos a mesma coisa
que fez a América Inglesa!”
E bradava: “Há de ser nossa
tanta riqueza!”

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
Liberdade ainda que tarde
nos prometia.

E cavalgava o machinho.
E a marcha era tão segura
que uns diziam: “Que coragem!”
E outros: “Que loucura!”

Mas ninguém mais se está rindo
pois talvez ainda aconteça
que ele por aqui não volte,
ou que volte sem cabeça...

(trechos do Romance XXXI do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles)


Não foi exatamente na Praça Tiradentes e muito menos em Minas Gerais, como muitos pensam, que Tiradentes morreu. Tendo nas mãos um mapa da Biblioteca Nacional, datado de 1785-1760, o historiador Milton Teixeira mostra o local exato da execução. Marcado pela palavra “forca”, este ficaria a algumas centenas de metros da atual Praça Tiradentes, mais precisamente no que hoje é a esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. Através do mapa e de alguns relatos históricos, também é possível reconstituir as últimas passagens da vida de Tiradentes. Milton conta que o alferes teria sido preso em 10 de maio de 1789, numa casa na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde teria se escondido depois de passar um tempo na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens (na atual rua da Alfândega). Tiradentes foi levado então para a Ilha das Cobras, onde passou a ocupar a cela número 3 do cubículo 5. Lá, foi submetido a vários interrogatórios, sempre negando a sua ligação com a Conjuração Mineira. Forçado pelas circunstâncias — todos os seus colegas o apontaram como líder do movimento — acabou assumindo o envolvimento. [...] Em sua sentença, a rainha Maria I foi taxativa: dos dez envolvidos, nove seriam presos e um seria condenado à morte. “Claro que sobrou para Tiradentes, que, além de ser o mais pobre entre os dez, ainda era dentista, profissão que parece nunca ter sido vista com bons olhos pelos portugueses”, brinca Milton. [...]


Não foi na Ilha das Cobras que Tiradentes passou sua última noite, e sim na Cadeia, edifício que ficava onde hoje está o Palácio Tiradentes; não por acaso, ali foi posta uma estátua do inconfidente. Vestido com uma camisa de onze varas e, segundo a lenda, depois de ter beijado as mãos e os pés do seu carrasco, Tiradentes deixou a cadeia na manhã de 21 de abril de 1792. Ele teria, então, seguido pela Rua da Cadeia (atual Rua da Assembléia), chegado ao Largo da Carioca, continuado pela Rua do Piolho (atual Rua da Carioca) até o campo da Lampadosa, assistido à missa na igreja que, na época, dava nome ao local e, finalmente, enforcado na esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. “Tiradentes nunca teve barba, bigode e cabelão, como costuma ser retratado em quadros e, no momento da execução, estava careca. Mas como a República chegou ao Brasil com um caráter agnóstico, o principal objetivo foi substituir a imagem dos santos pela das figuras pátrias. A de Tiradentes era a que mais se parecia com a de Cristo, porque, enquanto este veio para nos salvar, aquele teria vindo para nos libertar”, diz Milton, lembrando que, depois da execução, o corpo foi esquartejado na Casa do Trem (atual Museu Histórico Nacional) e cada pedaço enviado para lugares onde ele tivesse pregado suas idéias libertárias.



(Texto extraído do ótimo livro de Roberta Oliveira, Praça Tiradentes.)



Fotos da estátua de Tiradentes (diante do Palácio Tiradentes, onde fica a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) tiradas pelo editor do blog em 2007. Tiradentes é patrono das polícias militares do Brasil.

12 comentários:

Mariza de Almeida Rebouças disse...

Odeio historiadores!Sempre amei Tiradentes, fiquei ainda mais apaixonada quando vi no Museu Histórico um quadro que o retrata de pé, de corpo inteiro, altivo, doce,lindo, livre.
E agora me vem esse Milton e diz que o Tiradentes dos meus sonhos, além de não ser herói, era até careca?! Ah, doeu.

Jonas Prochownik disse...

Ivo, belo Post. Abrs. do amigo Jonas.

eduardo disse...

Se blog é muito bom.
Posso adicioná-lo ao meu blog:
http://cartasintimas.zip.net

http://dudve.blogspot.com( blog do meu pretenso libro)

Marilia Mota disse...

Ivo,
você vai gostar de ler o post da Sonia SantAnna sobre o assunto, no Contando Causos.
http://www.contandocausos.blogger.com.br/

Bjs

Anônimo disse...

Dear Ivo,
Qdo se e mineira, sabe-se historia ate p osmose.Este nome Lampadosa nunca me saiu da cabeca. Eu estava na terceira serie,tinha 8 anos qdo me contaram essa impressionante historia.Em Ouro Preto faziam questao de nos mostrar os locais onde foram expostos seus restos mortais.Creio q muitos de nos nao desiste da luta p melhores dias baseado no q nos foi ensinado:LBERTAS QUAE SERA TAMEN
Thank you por tambem resgatar nossa historia.
Dolores Gontijo
Toronto

Fã número um disse...

Caro amigo escritor .

Bela aula de história. Adorei e vou adquirir o livro do Milton.
Felicidades e sucesso para os dois.

Adailton disse...

Ouvi dizer que Tiradentes não foi morto...não foi ele quem foi esquartejado !...será que é verdade ?...teria fundamentos ?

Sonia disse...

Por esses labirintos da Internet vim parar aqui neste blog. Meu comentário talvez nem seja lido, pois se trata de um post antigo. Mas venho responder à amiga Marisa aí em cima. As pessoas preferem os mitos, geralmente são mais bonitos que a verdade, por isso causa desagrado quando se tenta contar a História tal como aconteceu realmente. Tiradentes foi herói num sentido: foi o único entre os inconfidentes a admitir sua participação na conjura e também o único a não acusar os companheiros. Mas não foi o líder da conspiração por ser o menos importante de todos. Ou ela acha possível que o comandante do próprio Tiradentes, ainda mais sobrinho de um vice-rei, e os mais ricos homens de negócios de Minas admitiriam ser chefiados por um simples alferes? Quanto a ele ter morrido careca, essa era a praxe, raspava-se a cabeça dos condenados para que os cabelos não dificultassem a execução (o que provocaria inclusive maior sofrimento à vítima). O mesmo se fazia com os decapitados e os guilhotinados na Europa e se faz hoje com os condenados à cadeira elétrica.

Anônimo disse...

Prezado Ivo!Parabéns pela bela homenagem!Salve,Salve,TIRADENTES!!!
Que bom saber que o seu blog divulga a nossa cultura!
Salve,Salve este blog!!!
Siomara de Cássia Miranda

Anônimo disse...

Prezado Ivo!Uma pessoa que não conseguiu deixar um recado no seu blog,me pediu para parabenizá-lo pela bela aula de história!
Siomara de Cássia Miranda

Anônimo disse...

Gostaria de saber que foi o artita que fez a estátua de Tiradentes!
Estou fezendo um apanhado da historia de Tiradentes e descobri muitos fatos interessantes:
Anos após ser retratado como Jesus, Onde a República criou o primeiro feriado nacional, também foi retratado com o rosto de Luiz Carlos Prestes pelo artita Candido Portinari e depois do golpe militar de 64, foi retratado com o rosto do então primeiro General Presidente Castelo Branco que ainda o nomeou como Patrono da Pátria e mandou que fosse colocado uma imagem de Tiradentes em todas as repartições públicas.

Marcelo C.Henrique disse...

É verdade, aimagem de Tiradentes que nos foi passada é apenas uma pintura da República...Valeu!!!