6.9.05

PROGNÓSTICO, de ALBERTO CARRAZ



— Vai dar merda!

Foi a única coisa que falou durante toda a reunião. Falou, não. Murmurou.

Como estava do lado, apenas eu ouvi. Fingi que nada tinha acontecido, qualquer reação minha poderia chamar a atenção para ele.

E toma falação. Nova estrutura da empresa, contratações de peso e demissões de toda maneira - justas e injustas.

Os que já estavam na companhia há algum tempo sentiram-se preteridos e desprestigiados. Mas ela continuou, ainda tinha muito a informar.

A estabilidade funcional na área de vendas seria determinada pela produtividade mês-a-mês. Metas atingidas, garantia de emprego.

Como teste de compreensão e agressividade de marketing, estabeleceu que cada um dos 18 vendedores, que a empresa chamava de "operadores de mercado" -- também gostavam de presepadas -- teria de vender dois automóveis por dia, nesta primeira semana. Que dessem o seu jeito. Que apelassem pra família. Que recorressem a amigos. Que procurassem por antigos clientes.

Fodam-se! Agora é política de resultados. Temos compromisso sério com a empresa!

Muito prazer em conhecê-los, bom-dia para todos e mãos à obra.

Naquele dia sobrou café na copa. Ninguém deu a costumeira passadinha antes de ir à luta.

Juvenal pegou seu cansado automóvel e, sem marcar visita, resolveu arriscar aquele velho e fiel cliente no outro lado da cidade. Nutria a esperança de, por ali, começar a escalada para a garantia de seu emprego.

Enquanto dirigia, ensaiava o discurso de venda. Procurava uma maneira de mesclar abordagem comercial com entremeios de amenidades, para que o papo ficasse menos pesado.

Tinha que dar o máximo de si. Oportunidade única de mostrar à nova chefe que ele era um dos melhores.

O sinal fechado aumentava-lhe o tempo de reflexão.

Porra, outro ambulante. Agora tem de tudo nos sinais.

Olhou com desinteresse, preparado para a negativa automática.

Que surpresa!

O cromado do revólver foi suficiente para que entendesse tudo.

Levantou a cabeça devagar e pediu calma ao meliante.

Calma é o caralho! Abre logo esta porra e pula pra lá. Perdeu, meu camarada.

Explicou que aquele era o seu único bem. Mais ainda: seu instrumento de trabalho. Seu sustento.

Porra, maluco. Tô ficando bolado.

Dois tiros e nada mais.

Sentiu que o mundo se afastava.

Onde estão minhas mãos? Cadê minhas pernas? Por que este silêncio?

E, num último momento de regozijo, achando que esboçava um sorriso, pensou: "Que bom! Estou liberado da meta desta semana."

Alberto Carraz é professor de língua portuguesa. Teve oportunidade de, por alguns anos, viver fora do Brasil. Por isso, dá muito valor a tudo que o país oferece. Com ressalvas, é claro.

5 comentários:

Meraluz disse...

Parabéns pelo conto, Carraz! Uma narrativa que resume, com propriedade, a realidade dos nossos dias. Também morremos um pouco com o protagonista no final.

Agora preciso ver Casseta e Planeta para compensar a carga depressiva :)

Marcio disse...

Prezado Ivo!

Já tentei várias vezes comentar no seu blog, mas depois que vc abre a caixa de diálogo ele te leva para preencher dados, e acaba que não se consegue postar. Tentei daqui onde estou, estou embarcado, (plataforma na Bacia de Campos), o firewall bloqueia alguns site, não consegui comentar seu blog mais uma vez. O interessante é que seu blog está muito bom. Com textos e imagens maravilhosos, pena que ainda não consegui postar. Resolvi então te escrever para falar sobre isso. Quando estiver em meu computador de casa, vou ver mais uma vez se consigo.
Um grande abraço.

Marcio
(enviado por e-mail)

Erik José Steger disse...

Brilhante, Carraz, meus parabéns!

Temos aqui um perfeito exemplo de como é inútil a chamada Justiça do Trabalho, que tanto dinheiro custa aos cofres públicos.

Erik José Steger disse...

Para Marcio, via Ivo

Marcio, eu também já fui um dos embarcados, algumas vezes, pois trabalhava para uma prestadora de serviços internacional que ganhou algumas concorrências para realizar trabalhos a bordo.

A Petrobrás é conhecida pelo rigor com que controla o acesso à rede através de seus terminais Internet, no que faz muito bem pois, já pensou se dados sigilosos sobre o petróleo brasileiro caíssem na mão de algum mal intencionadíssimo "hacker" internacional?
No Blog do Ivo funciona tudo direitinho, para nós os "normais" que acessamos em casa, não vá deixar meu grande amigo Ivo preocupado à toa

Anônimo disse...

Maravilha...!!

Curto e certeiro.

Tania