Texto de Ivo Korytowski
Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida (que sempre confundo com Joaquim Manuel de Macedo, de uma época em que abundavam os Manuéis e Joaquins, incluindo o nosso Joaquim Maria Machado de Assis) é um romance sui generis que transcorre “no tempo do rei” (D. João VI), mas onde os papéis principais são reservados aos personagens do povo, escrito por um jovem de 21 anos (idade de Manuel quando o primeiro capítulo saiu anonimamente no suplemento dominical Pacotilha do Correio Mercantil de 27 de junho de 1852) que, à semelhança de Van Gogh em sua pintura, só fez sucesso com sua literatura depois que se despediu deste mundo. Aliás, azarado, não teve sucesso em nada da vida: a primeira edição em livro de sua obra hoje famosa encalhou, sua carreira jornalística foi efêmera, e quando começou sua campanha para um cargo político, foi vítima de um naufrágio na costa de Macaé, numa época em que as estradas eram intransitáveis e as viagens por carruagem eram demoradas. Que o diga o tempo que D. Pedro I levou até chegar a São Paulo, onde proclamou nossa Independência.
À frente de seu tempo, em vez de escrever um romance romântico ao gosto do público leitor da época – como A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, primeiro best-seller da literatura brasileira – Manuel aventurou-se num romance que transcorria vinte anos antes de seu nascimento, portanto que só conheceu via testemunhos de outras pessoas. Um romance histórico, por assim dizer, que uns veem como picaresco, outros como precursor do naturalismo, ou um Tom Jones tupiniquim, ou o protótipo do malandro brasileiro, um proto-Macunaíma (ver Prefácio de Ruy Castro à edição da Companhia ds Letras), mas que é um pouco de tudo isso. O protagonista é um anti-herói travesso quando criança, preguiçoso no início da vida adulta, conflituoso em família, insubordinado nos empregos que obtém, mas que, graças ao bom coração, à boa índole, acaba conquistando a simpatia do major de milícias Vidigal, um personagem histórico, real, e acaba sendo promovido a sargento de milícias. E (cuidado, aqui vai um spoiler) embora volúvel nos assuntos do coração, casa-se com a primeira namorada depois que ela enviúva (aqui temos, sim, um elemento romântico neste romance tão antirromantismo).
As memórias, contadas por um narrador que dialoga com o leitor (o que em si já é uma contradição, pois memórias costumam ser contadas em primeira pessoa), conquistam o leitor com suas descrições engraçadas e divertidas dos tipos populares do Rio de outrora, entre eles o nosso Leonardo.
MANECO E MACHADO DE ASSIS
Segundo o jornalista e crítico literário Alfredo Pujol, Machado de Assis teria sido aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional, então sob a direção de Manuel Antônio de Almeida. Narra Daniel Piza em Machado de Assis: Um gênio brasileiro: "Conta Alfredo Pujol que Almeida, sabendo que aquele aprendiz adolescente às vezes se distraía do trabalho e ficava lendo pelos cantos, o chamou à sala para adverti-lo. Ao saber de suas produções literárias e dificuldades financeiras, e que Machado não raro passava a noite na oficina tipográfica, Almeida decidiu incentivá-lo. Seria o mais novo padrinho de Machado [...]" Machado dedicou a ele a poesia "Álvares de Azevedo", publicada em A Marmota em 12/1/1858, e o ensaio "O Jornal e o Livro", que saiu no Correio Mercantil em 29/1/1859.
A primeira edição não anônima, em que aparece o nome do autor, só saiu após a sua morte, em fevereiro de 1863, também em dois volumes, pela coleção "Biblioteca Brasileira", editada por Quintino Bocaiuva, tendo por revisor Machado de Assis. No dia 15 de fevereiro de 1863 escrevia Machado em sua coluna "Crônica" no jornal O Futuro:
Com a publicação do IX volume da Biblioteca Brasileira, termino a parte literária da quinzena.
Contém este volume a primeira parte do romance do meu finado amigo Dr. Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. A obra é bem conhecida, e aquela vigorosa inteligência que a morte arrebatou d'entre nós bastante apreciada, para ocupar-me neste momento com essas páginas tão graciosamente escritas. Enquanto se não reúne em volume os escritos dispersos de Manuel de Almeida, entendeu Quintino Bocaiuva dever fazer uma reimpressão das Memórias, hoje raras e cuidadosamente guardadas por quem possui algum exemplar. É para agradecer-lhe esta piedosa recordação do nosso comum amigo.
