DICAS

20.9.19

PAULICEIA REVISITADA, de HELIO BRASIL

fui parar na capital paulista


A convite de uma tia residente em São Paulo ––acompanhando minha mãe, em 1946, fui parar na capital paulista. Na época, note-se, ainda não quatrocentona.

A família Gonçalves Biar - moradora em apartamento na esquina da então verdejante Praça da República - acolheu-nos com a simpatia e elegância de sempre e minha discreta suburbanice recebeu um primeiro lustro civilizatório. A chefe do clã, minha tia, era a viúva Etelvina Gonçalves Biar.  Seus filhos, Waldemar, Beatriz, Olga, Célia e Rubens, o caçula - os três primeiros então casados. Na época eram ainda jovens e, exceto Rubens, já próximos à fronteira dos 30 anos. Com tia Etelvina morava, além de Rubens, estudante, Célia Biar, solteira, que, mais tarde viria brilhar nos palcos e na Televisão. Na época, Célia -excelente desenhista - trabalhava com a irmã na seção de modas de uma revista feminina.

São Paulo, para mim, tornou-se, então, a terra povoada pela inteligência e pela cortesia. Fomos tratados com fidalguia e carinho. 

Fazendo sua parte, Rubens incorporou o cicerone. Levou-me para conhecer a cidade, bairros e jardins, não apenas as deslumbrantes Avenidas Ipiranga e São João, com o Martinelli, pomposo e grande, disputando com o carioca edifício de A Noite, a glória de ser o primeiro arranha-céu brasileiro. Um “colosso” como exclamativamente gostava de dizer meu pai, um admirador da engenharia. Havia, também, a sede do Banco do Estado de São Paulo (hoje, Edifício Altino Arantes), novo gigante da arquitetura brasileira.

Martinelli

E ganhei autonomia para sair, pelas manhãs, sozinho (o que já fazia aqui no Rio) a procura do que me encantasse naquela cidade fervilhante de gente!

Sem dinheiro franqueado, caminhava a pé, a melhor forma de se conhecer um espaço urbano. O que seria aquela São Paulo? Conseguiria descobri-la?  Pois, para mim, o Rio já deixara de ser apenas São Cristóvão para ser também a cidade. Agora, cabia descobrir São Paulo além Praça da República e sua Escola Normal.

E São Paulo era o Viaduto do Chá, coalhado de jornaleiros gritando com sotaques italianados, japoneses sorridentes e apressados e as Estações da Luz, Sorocabana e a Franklin Roosevelt recebendo o Trem de Aço, o veloz Santa Cruz da EFCB que encurtara o espaço entre o Rio e a Paulicéia. O vale do Anhangabaú, o novo Chá em concreto e ao longe, em paralelo, Santa Efigênia elegantemente metálica, criando dois tempos tecnológicos. O Museu do Ipiranga: o orgulho de estar em sítio tão belo da história delineado por um fiapo de água.

Estação da Luz

Por tudo isto, revia as paisagens. Do belo apartamento de minha tia, na esquina do Arouche, cruzava a Praça da República, vencia a Ipiranga, subia a Sete de Abril, assumia o Chá e visitava as ruas de São Bento e adjacências, que muito se pareciam com as do velho DF (ainda abrigado no Rio); após revisitar o Largo de São Francisco, eu comprava – mania que conservo na velhice -  em discretas papelarias cadernos de desenho, lápis e borracha. Descia, de volta, a Líbero Badaró, de olho no grande edifício do Mappin.

Um passeio mais distante logo aconteceu em uma tarde de sábado, visitando o Pacaembu para ver Corinthians e São Paulo, sem opções de torcedor, para me convencer de que aquele estádio era o mais belo do Brasil.

Pacaembu

E nos belos cinemas da Avenida Ipiranga vi filmes americanos que registrei em velhos cadernos, mas que hoje não mais me ocupam a memória. Lá longe, o sagrado Jaraguá mantinha-se vigilante sobre a cidade, a urbe que jamais admitiu uma viela, um beco sequer, com o nome do ditador Vargas.

Voltei para a terra carioca sempre me perguntando: Quando, de novo, ver São Paulo? Até quando terei que ficar no Rio?

Porém, uma história sem imagens... Na época, fotografias eram usadas pelas famílias para registrar datas especiais. Minha visita não era deste naipe e, assim, não tenho nenhum registro fotográfico daquele luminoso momento em minha vida. Apenas a memória, agora em desespero, pois fragmenta-se e não consegue trazer nomes e imagens com a mesma precisão de outrora. Vivi a angústia de esperar um retorno jamais alcançado. Ninguém volta ao mesmo lugar no espaço, pois o tempo é que o realiza, avançando mais do que as lembranças.


Anhangabaú

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E o tempo não perde tempo em responder.

Em 1951, já iniciando o Curso de Arquitetura na FNA/UB, surgiu a oportunidade de rever a pauliceia.

Através do trabalho de Raphael Matheus Peres, colega de turma e nosso representante, conseguimos os favores de nosso mestre Júlio Cesar de Mello e Souza, o  Malba Tahan dos contos árabes e mago das Matemáticas, para nos patrocinar uma visita à Primeira Bienal de Artes na Pauliceia.

A exposição estava fragmentada em diversos edifícios e áreas da cidade, o que nos obrigou a deslocamentos interessantes e descobertas de que, em São Paulo, fazia-se arquitetura. Moderna.  Moderníssima. Enquanto, no Rio, só nos salvavam o Ministério da Educação, a ABI e a Estação de Hidros...

em São Paulo, fazia-se arquitetura

Voltei para o Rio em companhia dos colegas, todos nós inoculados pela Arte. Boa parte deles, por terem um sedimento cultural maior do que o meu, crescidos na escalada da cultura, como João Filgueiras Lima – o Lelé, Ruben Mauro Ludolf, Elder Rocha Lima, Liberal de Castro, Raphael Perez, Jaci Hargreaves, Reynaldo Fânzeres e outros, muitos outros.

Temos imagens, desta vez.

São Paulo crescera, ganha uma fisionomia mais urbana e impunha-se como uma cidade cuja escala ainda não fora encontrada. E, tal como hoje, oferecia um assustador horizonte de prédios amontoados. 

 assustador horizonte de prédios amontoados

Posso jurar que voltei ainda carioca, sempre carioca. Mas outro carioca...

Retornamos com a FNA a São Paulo na segunda Bienal, já no Ibirapuera e desta vez, comemorando o 4° Centenário da Cidade e, empolgados, vimos a obra de Oscar recém acabada, suas arrojadas marquises, suas rampas e o desfio de um generoso espaço moderno a nos revelar Calder, os nossos Portinari e Guinhard e, para espanto geral, o fabuloso mural de Pablo Picasso: a Guernica.

Outras vezes retornei à pauliceia, cada vez mais desvairada e grandiosa. Mas em minha mente guarda-se um craquilé de formas e cores e de progresso. Passo na velha Praça da República e não mais vejo as belas árvores e canteiros. Sou esmagado pela imensidão da Paulista e seus múltiplos gigantes de concreto e aço.  Deslumbro-me com o MASP e o ousado espaço conquistado por Lina Bo Bardi.

Deslumbro-me com o MASP

Curvo-me e respiro a densa névoa de uma garoa que já não se faz sentir.

Volto às minhas amadas montanhas, às praias ensolaradas, onde o mar me sussurra que estou em outro lugar, outro povo, outro pensar..

11.9.19

ZONA NORTE, JABUTICABEIRAS E PIQUENIQUES, de JANE DARCKÊ AVELAR

Paulistana de Perdizes, Jane Darckê Avelar optou por morar no Rio por amor a esta cidade-irmã. Texto escrito especialmente para este blog. Fotos obtidas na Galeria da Saudade, página do Facebook de Klaus Jürgen Mahrenholz que você pode acessar aqui


Uma bela foto da ponte de madeira sobre o rio Tietê em São Paulo. Do outro lado, o Bairro dos Remédios. Citada como sendo em 1968. Acervo Eliana Belo Silva.

Muitos paulistanos nasceram do lado de lá do Rio Tietê, ou seja, do lado de quem vai para o centro da cidade em direção à zona sul. Nós, aqui não. Nascemos do lado de cá, sentido Serra da Cantareira. Como demoravam as coisas para acontecerem deste lado, principalmente nos anos 1940! O bairro de Sant'Anna, o maior da banda de cá, tinha uma dificuldade imensa para a integração com a banda de lá. O rio Tietê transbordava e impedia a passagem. Enormes várzeas eram formadas por conta dessa situação. Pontes existiam, mas eram muito primitivas e a região ficava a mercê do tempo, das chuvas e dos alagamentos, que só foram sanados com a construção de pontes definitivas, mais altas que o rio, com novas técnicas de engenharia, como a Cruzeiro Sul, Ponte Grande, Casa Verde, Limão, Freguesia do Ó, Piqueri etc. 

Uma foto curiosa de 1929 de uma enchente na Rua Voluntários da Pátria, esquina com Dr. César, em Santana, São Paulo. Acervo Ita Castañon.

Ah! Mas coisas boas (e só agora valorizadas) aconteciam por conta deste capricho geográfico e meteorológico: bairros como a Vila Guilherme, Vila Ede, Vila Gustavo, Vila Maria, Parada Inglesa, Santa Teresinha, Santana, Freguesia do Ó, Casa Verde, Bairro do Limão, Pirituba e Jaguaré eram favorecidos pelas vistosas chácaras, onde se desenvolviam os pés de couve manteiga e tronchuda, chicória amarga, escarola, agrião, salsa, cebolinha e pimenta dedo de moça. Essa produção era vendida nas imediações por senhoras geralmente vestidas de preto, usando lenços na cabeça, com carriolas de madeira. Provavelmente, portuguesas viúvas. Outra parte da produção ia para a região do Mercado Municipal, no lombo de burricos. Também havia criação de cabras que produziam leite também vendido de porta em porta; coelhos também eram comercializados, assim como leitões novinhos, galinhas e frangos, que eram vendidos vivos. Haviam também alguns doces em compota, de banana, mamão verde, moranga e laranja amarga (chamavam de laranja cavalo). 

Uma linda foto antiga do Bairro de Santana, zona norte de São Paulo/SP em 1920, até então existiam muitas chácaras. Acervo Folha.

Já ia me esquecendo dos porcos. Eles vendiam a carne cozida em pedaços, em latas mergulhadas na banha e foi aí que nós crianças aprendemos a comer pão com banha de porco e o tal salzinho. Isso era feito por não haver refrigeradores. E acreditem, era prático: a mãe pegava um pedaço da carne da lata, que naturalmente já vinha besuntada com a banha e o feijão semi gordo, estava garantido: era só juntar uma folhinha de louro, alho fritinho e pronto! 

Santana é um dos bairros mais antigos da Zona Norte de São Paulo. Nessa foto antiga temos o dia de festa: regata de inauguração da Ponte das Bandeiras, em 25 de janeiro de 1942. Acervo Clube Esperia.

Agora, vamos às deliciosas bolinhas pretas que ilustram o nosso assunto. Em Santana, próximo ao Cemitério Chora Menino, existe uma rua de nome Copacabana. Hoje, toda feita de espigões luxuosos de 4, 5 até 6 dormitórios e obviamente, muitas vagas de garagem. Essa região era um vale, o que facilitou a edificação, pois faz-se 4 ou 5 subsolos de garagem e ao chegar ao nível da rua, começam os andares para apartamentos. Pois bem,
esses vales eram repletos de jabuticabeiras. Pessoas de outros bairros vinham em busca dessa fruta tão brasileira e apreciada. Era tanta procura que passaram a alugar os pés de jabuticabas. As famílias chegavam com filhos, netos, amigos, os “nonnos” (avós, em italiano) sem esquecerem-se do cachorro. E se apropriavam de um pé carregado e podiam devorá-lo por inteiro, não sem antes estender uma colorida toalha sob a frondosa selecionada. Sobre ela, cestos de vime com duas portinholas e dentro deles: torta de palmito ou frango, sanduichinhos de sardinha em lata com salsinha e naturalmente doces: bolo de fubá ou de mandioca. Guaraná da Brahma para a criançada, Cerveja Antarctica para os homens e Malzbier para as mulheres que estavam amamentando os seus bebês. Pronto! Feita a propaganda, sem querer... 

Uma bela Chácara na Vila Bela Vista em Vila Maria, São Paulo/SP. Foto de 1939. Acervo Hagop Garagem.

Este era um dos domingos paulistanos. Isso mesmo! Um “convescote” ou piquenique. Bons e velhos tempos de uma São Paulo que não existe mais. 

Ida ao mar? Falo depois... Um outro e delicioso assunto...