27.5.12

PASSEIO PÚBLICO



Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN em 1938, o Passeio Público é o primeiro jardim público do Rio de Janeiro, mandado construir pelo vice-rei D. Luiz de Vasconcelos, em 1783. Projetado por Mestre Valentim, importante artista do período colonial brasileiro, o jardim apresentava ruas retas que se cruzavam ortogonalmente e outras formando diagonais, e ostentava elementos decorativos também criados pelo artista, que ainda hoje estão presentes. Entre eles, o tombamento federal destaca o Portão Principal, o Chafariz dos Jacarés (Fonte dos Amores) e os Obeliscos (Pirâmides).

Uma grande reforma foi executada no Passeio Público em 1861, pelo botânico e paisagista francês Auguste Glaziou. Nela foram conservados os elementos arquitetônicos e artísticos originais, mas foi alterado o partido do jardim, adotando-se aleias curvas e sinuosas, lagos e pontes, à feição do paisagismo romântico (informação de um letreiro existente no Passeio Público).


Portão de acesso em bronze com feição rococó

Medalhão de D. Maria I, rainha de Portugal, mais tarde aqui no Brasil cognominada a Louca, e do rei consorte de Portugal, seu marido Pedro III

... ide passear algumas horas no Passeio Público...


Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como tem feito nos últimos dias, e ide passear algumas horas no Passeio Público, onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco, e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das carroças. 


José de Alencar em crônica de 29 de outubro de 1854

Chafariz dos Jacarés


Uma das obras primas do Mestre Valentim, a Fonte dos Amores foi projetada em 1783, quando a cidade do Rio de Janeiro era marcada pela sujeira e pela insalubridade. A falta de água potável foi amenizada a partir da construção, pelo vice-rei, de fontes e chafarizes por toda a cidade.
No projeto de Valentim, como se pode observar, a Fonte foi colocada em local de destaque dentro do jardim. Ao entrar no Passeio, o visitante avistava imediatamente a Fonte dos Amores.
A Fonte possui duas faces. Na que está voltada para o jardim, encontra-se o Chafariz dos Jacarés. As esculturas, fundidas em bronze na antiga Casa do Trem, despejam [na verdade, despejavam; a fonte atualmente está seca] pela boca a água que cai no tanque semicircular que rodeia a cascata. A outra face da Fonte dos Amores tem o Chafariz do Menino. Para observá-lo melhor é necessário subir até o terraço.
Mesmo com toda a transformação realizada por Glaziou, em 1861, foram mantidas do original do Mestre Valentim a Fonte dos Amores e as pirâmides (informação de um letreiro do Passeio Público).

Chafariz dos Jacarés (detalhe)

Chafariz do Menino: "Sou útil inda brincando".

Entrava então no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa. — Por que não serás ministro, Cubas? — Cubas, por que não serás ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a cavar comigo aquela idéia. 


Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas


Duas pirâmides em granito de Mestre Valentim (1806)

[Mestre] Valentim pertenceu à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, composta de homens pardos como ele, tendo a ela se filiado em 1766. Desde então, até 1813, produziu valioso acervo de obras que o tornaram notável entre os demais artistas do Rio de Janeiro colonial. Embelezou a cidade com dois importantes marcos: para o largo do Paço (atual praça Quinze), a mais importante praça da cidade, produziu o belíssimo chafariz; na área do aterro da antiga lagoa do Boqueirão projetou e realizou o primeiro jardim público da cidade, o atual Passeio Público, inaugurado em 1783. Aliás a obra do Passeio representou a primeira intervenção do poder público na cidade, que partia de um ponto de vista global e objetivava retirar o largo do Paço de sua posição de único marco espacial no gênero. Foi sem dúvida uma proposta ousada, que partiu do vice-rei d. Luis de Vasconcelos e Souza. Exigiu obra complexa e cara de aterramento da lagoa e desbastamento de parte do morro do Desterro (atual morro de Santa Teresa). O projeto não se resumia ao Parque, mas compreendia um todo integrado e inovador, ao qual a baía de Guanabara se incorporava ao mesmo tempo como paisagem descortinada por quem no Passeio estivesse plantado, ou como ponto de vista de quem chegava à cidade pelo mar. Em seu lado oposto e extremo, no vértice formado pela atual rua Evaristo da Veiga, ficava o chafariz das Marrecas, que fornecia água potável acessível ao consumo da população. Unindo o parque ao chafariz corria uma rua larga, reta, direcionadora do olhar daquela pessoa que se dirigia ao grande jardim, preparando-a ao deleite de um passeio pelas alamedas floridas que convergiam para o eixo principal e terminava no terraço descortinando a bela visão da baía de Guanabara. Nos extremos desse terraço erguiam-se dois pavilhões hexagonais em que se exibia a arte muralista de painéis com conchas e penas, obras de Francisco dos Santos Xavier (Xavier das Conchas) e de Francisco Xavier Cardoso Caldeira (Xavier dos Pássaros) muito apreciadas pela população da cidade. No interior do Parque não faltavam elementos de adorno, presentes em famosos passeios públicos de outras cidades da Europa, como fontes e estátuas. A rua que unia o Passeio Publico ao chafariz, atual Marrecas, principal via de acesso ao Parque, foi batizada com o poético nome de "Belas Noites", numa clara alusão ao espetáculo visual que oferecia aos transeuntes nas noites de luar. Foi a primeira rua aberta sem o objetivo utilitário de circulação e oferta de lotes para novas construções. Ao contrario, nasceu para desempenhar uma função estético-espacial e expressar, deliberadamente, o mais sofisticado nível do viver urbano com arte.

Com esse conjunto inovador, a cidade passou a oferecer a todos a oportunidade do deleite urbano, e possibilitou a seus usuários a chance de demonstrarem o grau de civilidade que possuíam, bem como os gestos e as maneiras de uma educação requintada. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro poderia, a partir dessa grande intervenção, colocar-se ao lado da cidade de Lisboa e outras do Reino.

Nireu Cavalcanti, O Rio de Janeiro Setecentista, pp. 312-13


Da esquerda para a direita: Verão, outono, inverno, primavera, esculturas em ferro fundido de Mathurin Moreau (Fundições Val d'Osne) de 1860.

Em cima, da esquerda para a direita: bustos de Raimundo Correia, Chiquinha Gonzaga, Alberto Nepomuceno, Pedro Américo; em baixo: Vítor Meireles, Castro Alves e Mestre Valentim.

O espetáculo dessa natureza opulenta...

FAZEI de conta que vos achais agora comigo no aprazível terraço do Passeio Público do Rio de Janeiro. O dia foi calmoso. Em compensação, porém, a tarde é bela e fresca. O sol derrama sobre a terra seus últimos raios. Anuncia-se a hora do crepúsculo. A viração festeja docemente as verdes folhas das árvores que sussurram com um leve ruído. Imaginai tudo isto. Embalar-vos-eis com uma ficção que já tem sido e será mil vezes uma verdade. Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado. Deixemos o futuro a Deus no Céu e aos poetas na Terra.

Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, “Passeio Público”


Fonte do Tritão, em bronze, réplica de 2004 da fonte original de Nicolina Vaz de Assis furtada em 1993

14.5.12

COM REJANE SOBREIRA MINATO EM SÃO CRISTÓVÃO

Corcovado visto (por uma nesga) da casa de Rejane.

REJANE SOBREIRA MINATO, museóloga, poetisa e pintora, reside há três décadas em uma casa antiga na Rua São Januário, no Bairro Imperial de São Cristóvão. Seu poema Casarão pode ser apreciado no meu outro blog, o Sopa no Mel, clicando aqui. Rejane é autora de uma monografia sobre o bairro, ROTEIRO DE FRAGMENTOS HISTÓRICOS DO BAIRRO DE SÃO CRISTÓVÃO, com a qual obteve o grau de bacharel em Museologia, e que está disponível no Google Docs (para acessar clique aqui). 

Rejane gentilmente me conduziu (na companhia do arquiteto Helio Brasil, autor do livro São Cristóvão  clique em seu nome no menu da direita para conhecer suas contribuições a este blog) por um passeio nas imediações da casa dela, onde muitas surpresas me aguardavam, que sozinho eu dificilmente descobriria. As fotos resultantes estão aqui expostas. Os textos entre aspas são trechos de sua monografia.

Duas casas na Ladeira São Januário.

Igreja de São Januário e Santo Agostinho na Rua São Januário, 249, inaugurada em 1947. Uma igreja singular no Rio pelo teto e paredes da nave recobertos de afrescos com efeito trompe-l'oei dando a impressão de alto-relevo. Também dignos de nota os vitrais e quadros dos passos da Paixão.

Interior da igreja (colagem).  

"Antes mesmo de ser solucionado o problema da ocupação francesa, Estácio de Sá doou à Companhia de Jesus uma imensa sesmaria no Recôncavo da Guanabara, que se estendia do Rio Comprido até Inhaúma, legitimada, em 1568, pelo Governador Geral Mem de Sá, ao Colégio dos Jesuítas que, naquela ocasião, situava-se no Morro do Castelo. Esta sesmaria incluía a Fazenda do Engenho Velho, do Engenho Novo e de Santa Cruz além da Fazenda de São Cristóvão, onde os jesuítas tinham suas plantações de cana-de-açúcar e criações de gado. Considerada a ordem mais rica da cidade, a influência dos jesuítas estava presente não só na educação, mas também na vida política e econômica."

Casarão na Rua São Januário, 201 onde funciona a Interclin Clínica Médica.

"O acesso à Fazenda de São Cristóvão era difícil em virtude de sua topografia 'semianfíbia', caracterizada por grandes alagados, pântanos, morros, praias, rios, além de uma grande floresta. Embora os jesuítas tenham sido os pioneiros na ocupação da várzea e da penetração no sertão carioca, somente por volta de 1627 começaram a ocupação efetiva da fazenda edificando, inicialmente, uma igrejinha à beira da praia dedicada à São Cristóvão, padroeiro dos viajantes, nas proximidades do caminho que servia de ligação entre a cidade e o interior fluminense."


Art déco. Antiga fábrica de cosméticos, atual depósito da Polícia Federal, na Rua São Januário, esquina com Rua Carneiro de Campos.

"Um dos principais lotes ocupados seria de importância vital para todo o desenvolvimento do bairro. Foi comprado pelo rico comerciante português, Antônio Elias Lopes e transformado numa chácara que recebeu o nome de Quinta da Boa Vista, em virtude da bela paisagem que a circundava. Na parte mais elevada do terreno foi construída a sede da chácara, um imenso casarão de dois pavimentos que logo passou a ser considerada a melhor residência da cidade."


Contraste arquitetônico.

"Por este motivo foi presenteada, por Elias Lopes, ao Príncipe D. João, quando este chegou ao Rio de Janeiro, no início do século XIX. Aceita a oferta D. João instalou-se na residência logo que a recebeu, tornando-a o verdadeiro centro da monarquia portuguesa. A família de Bragança instalou-se na Quinta da Boa Vista ainda em 1808, conferindo ao bairro de São Cristóvão o status de real, ou seja, aristocrático da cidade."


Casarão classicizante na Rua São Januário, quase na esquina com a Rua Teixeira Júnior.

"Foram feitas benfeitorias que a nova condição exigia datando, desta época, os primeiros melhoramentos na infra-estrutura do novo bairro e de suas imediações. Os pântanos, ainda existentes, foram aterrados e abertas novas ruas. Durante todo o século XIX o bairro de São Cristóvão passou por grandes transformações políticas, econômicas e sociais. A partir de 1850, com o progresso da cafeicultura, os ricos “barões do café” enriqueceram a cidade com seus palacetes neoclássicos e todas as benfeitorias implantadas na cidade foram rapidamente levadas para o bairro onde habitava a elite."


Casarão com elementos art-nouveau na Rua São Januário, perto do Vasco da Gama.

"Com a Proclamação da República, em 1889, o bairro, impactado pelos acontecimentos políticos vinculados à consolidação do novo regime, sofreu rápida transformação. A aristocracia, pouco a pouco, foi deixando seus palacetes em São Cristóvão e mudando-se para outros mais elegantes na Tijuca e em Botafogo. O Palácio da Quinta foi abandonado pelos republicanos que adotaram como sede do governo o Palácio Itamarati e, posteriormente, o Palácio do Catete."


Rua Dom Carlos, esquina com Rua São Januário (pertinho do Vasco da Gama).

"A modernização do porto, uma das etapas importantes da Reforma Pereira Passos, tinha como objetivo atender ao volume de mercadorias, implicando na demolição de trapiches e aterro de enseadas. Como consequência, o bairro de São Cristóvão perdeu a região praieira, ligando-se diretamente com a Avenida Rodrigues Alves. Isto contribuiu para o surgimento de favelas em virtude do altíssimo número de desabrigados."


Chalés na Rua Cel. Cabrita.

Prédio de curva. À esquerda subida do Morro do Tuiuti.

A praça é do povo... (Praça Alfredo Machado, ex-Praça Elisa Cyleno)

Bar com águia no topo na esquina das ruas Tuiuti com Curuzu.

Pavilhão de São Cristóvão e Igreja de São Januário vistos da Rua da Liberdade ao cair da tarde.

Casario na Rua da Emancipação.