25.10.10

IGREJAS HISTÓRICAS DO CENTRO DO RIO (Parte 2.5): IGREJA DO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO & IGREJA DE SÃO FRANCISCO DA PENITÊNCIA

LARGO DA CARIOCA

Largo da Carioca. O chafariz foi construído junto com o Aqueduto da Carioca para solucionar o problema de abastecimento de água. Atrás (da esquerda para a direita) o Convento de Santo Antônio, a Igreja conventual ainda com o frontão triangular maneirista substituído na década de 1920 pelo frontão neocolonial, e a igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Jansson, J. 1824.

Convento e igreja de Santo Antônio (esquerda) & e Igreja de São Francisco da Penitência (direita) vistos do Largo da Carioca. Quem passa apressado por lá no dia-a-dia não imagina os tesouros artísticos que essas igrejas guardam.
As duas igrejas vistas de perto.

IGREJA DO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO

A Igreja de Santo Antônio foi construída de 1608 a 1620, sob o risco do Frei Francisco dos Santos. Durante o século XVIII, foram feitas obras sucessivas, com a construção da frente da nave e a inclusão do galilé no corpo da nave. A aparência externa da Igreja reflete a influência jesuítica, com portadas de pedra portuguesa de lioz, tendo três portas no primeiro pavimento, três janelas de peitoril, com vidraças no coro, frontão reto apresentando um óculo no tímpano. O Convento que ladeia a igreja pelo lado esquerdo, é edificação da segunda metade do setecentos, constitui uma sólida massa edificada de três andares, com pequenas e espaçadas janelas. O cunhal que limita a fachada conventual é encimado por forte e alto pináculo. Entre o convento e a igreja aparece a sineira. 

Para o claustro central, o corredor do térreo se abre em arcadas de cantaria, enquanto nos andares superiores, as celas apresentam janelas de dimensões restritas, diferindo no conjunto das demais construções franciscanas no Brasil. 

No interior da Igreja, as pinturas que ornam a capela-mor e os trabalhos de talha nela encontrados, juntamente com os outros dois altares da nave formam um raro conjunto de obras que mantêm a feição do gosto artístico do nosso barroco inicial. Pelo lado direito da nave, em grande arco gradeado, abre-se a Capela da primitiva Ordem Terceira com talha também barroca, porém de fase posterior. A Sacristia representa notável composição arquitetônica, reúne um conjunto destacado de obras do século XVIII, entre elas, o arcaz confeccionado em 1749 por Manoel Alves Setúbal, os azulejos e os painéis emoldurados representando cenas da vida de Santo Antônio. Em sala próxima, sobressai o lavabo monumental trazido de Portugal. Nas Capelas domésticas, entre as quais se sobressai a das relíquias, localizadas no claustro encontram-se imagens de barro cozido, que representam o nascimento e a morte de São Francisco. Destaca-se, ainda, na sala do palratório, o forro emoldurado e pintado com elementos rococó. (Fonte: site do IPHAN)

Igreja do convento de Santo Antônio com frontão neocolonial dos anos 20.

Imagem de Santo Antônio sobre a amurada do convento.

IGREJA DA ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO DA PENITÊNCIA

Em 1619 foi fundada a Ordem Terceira da Penitência, pelo português Luís de Figueiredo e sua mulher, e em 1620 já se encontrava pronta a Capela da Conceição, localizada perpendicularmente ao lado direito da igreja conventual. A igreja da Ordem Terceira foi iniciada em 1653, construída paralelamente à Igreja conventual, também pelo lado direito, mas por causa de desavenças na Irmandade, somente a partir de 1726 as obras se aceleraram, e no ano de 1773 foi inaugurada. A primitiva Capela ficou incorporada à nova Igreja. 

Igreja sem torres ou sineiras, sua fachada destaca-se de todas as demais do Rio de Janeiro. Tem seu frontispício dividido em quatro pilastras terminadas por pináculos de cantaria e ligados pela cimalha corrida, interrompida por óculo que é o centro do frontão barroco, formado por conjunto de seis janelas e três portas divididas pelas pilastras em três partes iguais [VER FOTO ABAIXO]. A parte central corresponde ao corpo da Igreja e apresenta uma portada trabalhada em lioz vinda de Portugal, onde se observa um medalhão com os respectivos escudos da Ordem Franciscana e de Portugal e na parte superior é arrematado por linhas sinuosas. 

O interior da Igreja, todo revestido de talha, expõe um raro exemplar da arte barroca. Dois grandes artistas, Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito, trabalharam para as realizações das obras. O início dos trabalhos de entalhe ocorreu pelo altar-mor em 1726, obra de Manuel de Brito. Seguem-se cronologicamente os trabalhos realizados por Francisco Xavier de Brito para os púlpitos (1722), arco cruzeiro (1753) e seis altares laterais da nave (1736-1738). O preenchimento dos espaços entre um altar lateral e outro foi iniciado em 1739 por Manoel de Brito. A talha da primitiva Capela da Ordem Terceira, que se abre em arco para a igreja conventual vizinha, é também destacada pela sua composição, datando, provavelmente, do segundo quartel do século XVIII. No retábulo do altar, destacam-se as figuras dos quatro Evangelistas assentadas nas bases das colunas que sustentam o dossel de coroamento. [...]

A pintura do teto da nave da igreja (1737) foi realizada por Caetano da Costa Coelho, que utilizou a técnica da pintura em perspectiva ilusionista. A sacristia apresenta um conjunto de obras rococó composto pelo arcaz e pelas pinturas dos painéis emoldurados, localizados no teto. Com arranjo museológico, os compartimentos à esquerda da igreja apresentam as imagens, os andores, os paramentos e demais objetos relativos à Procissão da Cinzas, uma das mais importantes do Rio antigo. O altar para a capela do Santíssimo Sacramento é obra realizada no século XIX, como também o cemitério, localizado nos fundos, colado aos barrancos do morro, de aspecto neoclássico, composto por duas colunatas que ladeiam uma parte central aberta em forma retangular. (Fonte: site do IPHAN)

Frontispício dividido em 4 pilastras terminadas por pináculos de cantaria e ligados pela cimalha corrida, interrompida por óculo que é o centro do frontão barroco; formado por conjunto de seis janelas e três portas divididas pelas pilastras em três partes iguais. 

Portada barroca

O interior da igreja, todo revestido de talha, expõe um raro exemplar da arte barroca.

Altar-mor. Observe as figuras dos evangelistas nas bases das colunas que sustentam o dossel de coroamento.  

Pintura do teto em perspectiva da apoteose de São Francisco.
Fotos do editor do blog (salvo indicação contrária). Para outras postagens sobre igrejas clique no marcador abaixo. Para ver um álbum de fotos de igrejas do Rio clique aqui.

12.10.10

GOOGLE STREET VIEW NO RIO DE JANEIRO

Com o Google Street View você pode fazer todos os passeios que eu faço pelos meandros de nossa cidade (exceto favelas) sem sair do conforto do seu computador. Incrível, não? Para saber como funciona clique aqui. Eis algumas imagens para você ter uma ideia da coisa (use o botão esquerdo do mouse para girar a imagem em 360 graus e o botão de rolagem para regular o zoom):

1. Igreja de São Jorge em Quintino (veja também a nossa postagem Salve São Jorge):


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2. Largo de São Francisco da Prainha na Zona Portuária a ser revitalizada:


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3. Avenida Atlântica (não deixe de girar a foto com o botão esquerdo do mouse para ver a praia do outro lado):


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4. Os pudicos que me perdoem mas não resisti a essa espiada na zona do baixo meretrício na Vila Mimosa:


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1.10.10

ARTE DE FLANAR

COM FOTOS DO EDITOR DO BLOG DE SUAS FLÂNERIES PELA MUI LEAL E HEROICA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO




Flanar - andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar, perambular (Dicionário Eletrônico Houaiss)












A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOÃO DO RIO


Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.


É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. [...]


O flâneur é ingênuo quase sempre. Para diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. [...] Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...


Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. (João do Rio, A alma encantadora das ruas)








A ARTE DE FLANAR (e ruminar) SEGUNDO MACHADO DE ASSIS


É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me à casa ou à Rua Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bonde é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos . O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende cigarro; o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também. (Bons Dias, 21 de janeiro de 1889)







A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOSÉ DE ALENCAR


Sabeis o que é a flânerie? É o passeio ao ar livre, feito lenta e vagarosamente, conversando ou cismando, contemplando a beleza natural ou a beleza da arte; variando a cada momento de aspectos, e de impressões. O companheiro inseparável do homem quando flana é o charuto; o da senhora é o seu buquê de flores.


O que há de mais encantador e de mais apreciável na flânerie é que ela não produz unicamente o movimento material, mas também o exercício moral. Tudo no homem passeia: o corpo e a alma, os olhos e a imaginação. Tudo se agita; porém é uma agitação doce e calma, que excita o espírito e a fantasia, e provoca deliciosas emoções.


A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião.


Não falando já do Passeio Público, que me parece injustamente votado ao abandono, temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro. O lanço d'olhos é soberbo: vê-se toda a cidade à vol d'oiseau, embora não tenha asas para voar a algum cantinho onde nos leva sem querer o pensamento. (Ao correr da pena, 29/10/1854)








A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOAQUIM MANUEL DE MACEDO


Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.

Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até... até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.


Vamos passear. (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro)








A ARTE DE FLANAR SEGUNDO HELIO BRASIL


Sugiro ao leitor demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...

A era do automóvel, este “ente” maravilhoso do qual dependemos excessivamente, cada vez mais nos impede de apreciar o espaço que nos cerca. A velocidade nos rouba o convívio com os lugares por onde passamos e, sem o convívio, os significados empalidecem.

Não é à toa que, por vezes, "descobrimos" uma ruela, um beco, um conjunto de casas, um simples muro desenhado pela intempérie pelo qual passamos "batidos", no dia-a-dia, sem a real oportunidade de conhecê-los.

A "medida" do homem ainda é o seu passo. (Helio Brasil, São Cristóvão.)







A ARTE DE FLANAR SEGUNDO PEDRO NAVA


Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond. [...]

O conhecimento puramente local do Rio eu o aprendi numa grande escola: o serviço de ambulâncias do velho Hospital de Pronto Socorro. Dizem que quem mais entende de nossa cidade são os choferes de táxi e os médicos da Assistência. Pertenci ao grupo... E sei descobrir os segredos — a polpa de nossas ruas. Exemplo? Um belo dia verifiquei que o Rio era a cidade mais rica das que eu conhecia em matéria de serralheria. Aprendi a admirá-las. [...]

Mas andando a pé em nossa cidade não são apenas épocas coloniais e imperiais que desvendamos. Tampouco fachadas pernambucanas, baianas ou mineiras que podemos ver. Viaja-se em todas as épocas e províncias do Brasil e pode-se sair também aí afora por esse mundo vasto mundo. [...]

À medida que as obras do Metrô e a insensibilidade dos procônsules nossos governantes vão demolindo de preferência o que há de sentimental, histórico e humano no Rio de Janeiro, multiplico meus passeios nas ruas malferidas — como quem se despede. (Pedro Nava, Galo das trevas, Memórias 5)








A ARTE DE FLANAR SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG


No Capítulo XXI de Quincas Borba, na viagem de trem de Barbacena ao Rio de Janeiro, Rubião observa que, “para quem estava acostumado a costa de burro, a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso...”

De progresso em progresso, descartamos o zepelim, o transatlântico, a maria-fumaça, o bonde (com a honrosa exceção do bondinho de Santa Teresa, o último dos moicanos). Viajamos espremidos na classe turística de monstruosos aviões. As atrações turísticas se sucedem qual programas de televisão sob a batuta do controle remoto: chegada em Paris, translado ao hotel, à tarde, city tour pelos principais monumentos, à noite, espetáculo no Lido, manhã seguinte, Museu do Louvre (correria pelos quadros mais “famosos”)...

Tudo muito vertiginoso. Um progresso, não se pode negar. Mas cá entre nós: pra conhecer uma cidade, você tem de caminhar por ela, sentir-lhe o burburinho, os odores, os sabores, o colorido, a paisagem humana.

Com o advento do assalto à mão armada, do poder paralelo dos traficantes, dos arrastões e tiroteios, passamos a temer nossa própria cidade maravilhosa e perdemos o costume de “andar por aí”, “sem lenço, sem documento”. Algumas páginas da literatura talvez nos inspirem a retomarmos esse hábito.

No conto machadiano "O Erradio", o personagem principal é um andarilho urbano. “Ia a toda parte; era comum achá-lo nos lugares mais distantes uns dos outros, Botafogo, São Cristóvão, Andaraí. Quando lhe dava na veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si mesmo erradio.” Uma noite, após sair no meio de uma peça de teatro e tomar chá (!) no botequim próximo até o fechar das portas, Elisário (assim se chamava o Erradio) vai a pé do centro a São Cristóvão, percorrendo um Rio antigo em grande parte destruído pela abertura da Avenida Presidente Vargas e pelo aterro do Cais do Porto.

Quem leva à perfeição a arte de flanar pelo Rio antigo é Pedro Nava, que em sua obra autobiográfica descreve longos passeios pela Glória, Santa Teresa, Centro, São Cristóvão, Rio Comprido na primeira metade do século XX. E Helio Brasil, em seu primoroso livrinho São Cristóvão, sugere ao leitor “demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...”





A ARTE DE FLANAR SEGUNDO VICTOR HUGO


Andar sem destino, isto é, flanar, é um ótimo modo de o filósofo passar o tempo; particularmente nessa espécie de campanha um tanto bastarda, bastante feia, mas interessante, composta de duas naturezas, rodeando sempre as grandes cidades, especialmente Paris. Observar os arredores de uma cidade é ver algo de anfíbio. Finda-se o arvoredo, começam os telhados; acaba-se a relva, começam as calçadas; terminam os sulcos do arado, aparecem as lojas; findam-se as estradas, iniciam-se as paixões; fim do murmúrio divino, começo do rumor humano; daí seu extraordinário interesse.

Daí os passeios do pensador, aparentemente ao léu, a esses lugares tão pouco atraentes, marcados para sempre pelo epíteto de tristes que lhe deram os transeuntes. (Victor Hugo, Os miseráveis, Parte 3, V)