24.4.07

SANTA TERESA NA LITERATURA


Súbito, me revejo no hotel Bela Vista, onde me instalei em certo dia de calor, uma hora da tarde. Eu acabara de desembarcar de um navio. [...]

Fui para uns dias, apenas. Acabei passando dezessete anos e meses. Sempre no mesmo quarto, terceiro andar. O quarto dava para uma varanda, coberta, com vista ampla sobre a cidade. Via-se muito. O Corpo de Bombeiros. A Central do Brasil, com seu relógio. Até a ponte Rio-Niterói, lá longe. Viam-se os aviões que saíam do Galeão. Bela vista. [...]

Houve tanta pessoa curiosa, naquele hotel-residência. [...]

Mas houve a mais triste das histórias. Um belo dia, o dono resolveu vender o hotel. Com a inflação, os lucros já não compensavam. E assim cometeu ele sem mais esta imprudência. Que fazer com o dinheiro? Comprou um posto de gasolina. Não deu certo. Comprou um restaurante na cidade. Foi roubado. Perdeu tudo. Em pouco tempo, não tinha mais nada. O dinheiro evaporou-se.

Fizeram os velhos um pacto de morte. Decidiram lançar-se na lagoa Rodrigo de Freitas. Morreriam juntos. E assim fizeram. Ela morreu logo. Morreu afogada, na soturna lagoa. Ele sobreviveu. Foi socorrido. Levaram-no para o Miguel Couto. Escapou da morte.

Mas não tinha para onde ir. Bateu à porta do hotel. E pediu ao novo dono que lhe desse um quarto, um lugar à mesa. O dono concordou, com generosidade. O velho Luciano voltou ao seu hotel, como hóspede gratuito. Era uma sombra de si mesmo.

(André Pestana e Antonio Carlos Villaça, Os seios de Jandira)




As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam que deseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se o mistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de Santa Teresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento.

(João do Rio, A alma encantadora das ruas)




Subia a passo curto e repousado a ladeira de Santa Teresa, calculando a hora de minha chegada pelo despertar de Lúcia; o meu pensamento porém abria as asas, e precedendo-me, ia saudar a minha doce e terna amiga.

Havia oito dias que Lúcia não andava boa. A fresca e vivace expansão de saúde desaparecera sob uma langue morbidez que a desfalecia; o seu sorriso, sempre angélico, tinha uns laivos melancólicos, que me penavam. Às vezes a surpreendia fitando em mim um olhar ardente e longo; então ela voltava o rosto de confusa, enrubescendo. Tudo isto me inquietava; atribuindo a sua mudança a algum pesar oculto, a tinha interrogado, suplicando-lhe que me confiasse as mágoas que a afligiam.

— Não digas isso, Paulo! respondia com um tom de queixa. Posso ter pesares junto de ti? É uma ligeira indisposição; há de passar.

(José de Alencar, Lucíola)




Quero levar-vos hoje ao mosteiro das freiras carmelitas reformadas, ao retiro melancólico das filhas de Santa Teresa. [...]

O monte em que está situado o convento que vamos estudar não é mais o que era dantes, nem no nome, nem nas condições, nem no aspecto. Chamou-se morro de Nossa Senhora do Desterro desde o princípio do século décimo sétimo; no fim do décimo oitavo, porém, trocou esse nome pelo de Santa Teresa, que lhe deu o convento.

No outro tempo – e o outro tempo ainda era apenas há cem anos passados – os grandes da cidade e os negociantes ricos tinham as suas chácaras na então estrada, mais tarde rua de Mata-cavalos [atual Rua do Riachuelo], e em outros sítios vizinhos, e o monte de Nossa Senhora do Desterro era uma solidão imensa, e mostrava-se coberto de florestas onde somente penetravam caçadores animosos a quem não faziam recuar os casos sinistros de ataques de quilombolas.

Hoje o morro de Santa Teresa está encravado no seio da cidade, como uma esmeralda em um enorme diadema. É ainda um saudável e desejado retiro, por que o rumor incessante da multidão que remoinha no vale não pode chegar até aos asilos tranqüilos de suas alturas, e porque a sua atmosfera deleitosa e pura contrasta com ondas quentes e pesadas do ar que no vale se respira. Não é mais uma solidão como outrora: é ainda um subúrbio da cidade. Mas a cidade quase por todos os lados o cerca, e vai pouco a pouco subindo por ele como uma insaciável conquistadora.

Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro




Luís Garcia era funcionário público. Desde 1860 elegera no lugar menos povoado de Santa Teresa uma habitação modesta, onde se meteu a si e a sua viuvez. Não era frade, mas queria como eles a solidão e o sossego. A solidão não era absoluta, nem o sossego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que cá embaixo.

Machado de Assis, Iaiá Garcia

No dia seguinte, estava Rubião ansioso por ter ao pé de si o recente amigo da estrada de ferro, e determinou ir a Santa Teresa, à tarde; mas foi o próprio Palha que o procurou logo de manhã. Ia cumprimentá-lo, ver se estava bem ali, ou se preferia a casa dele, que ficava no alto. [...]

— Vá jantar logo comigo, em Santa Teresa, disse o Palha ao despedir-se. Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se. [...]

A lua era magnífica. No morro, entre o céu e a planície, a alma menos audaciosa era capaz de ir contra um exército inimigo, e destroçá-lo. Vede o que não seria com este exército amigo. Estavam no jardim. Sofia enfiara o braço no dele, para irem ver a lua. [...]

Rubião lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada em não sei que décima de 1850, ou de qualquer outra página em prosa de todos os tempos. Chamou aos olhos de Sofia as estrelas da terra, e às estrelas os olhos do céu. Tudo isso baixinho e trêmulo.

Machado de Assis, Quincas Borba


Fotos de Santa Teresa tiradas por Ivo e Mi. Clique no marcador Santa Teresa abaixo para ver outras postagens sobre esse bairro.

11.4.07

VIOLÊNCIA & MARAVILHAS

Notícias no jornal sobre o Rio desalentadoras: violência violência violência. Fazer o quê? Trancar-se em casa? Não, a gente tem que sair às ruas e reconquistar nossa cidade. Vou ao Centro à procura de maravilhas. Vejam o que encontro:


Escadaria Selarón, na Lapa, que vai dar em Santa Teresa


As paineiras da Cinelândia nesta época florescem



Outra paineira na Cinelândia


Na Caixa Cultural (o centro Cultural da Caixa Econômica), exposição sobre a arte dos grafites, Fabulosas Desordens


Igreja e convento de Santo Antônio, Largo da Carioca, uma das construções mais antigas do Rio (1608-1620, com reformas e restaurações posteriores)


Não resisto a mostrar mais esta paineira no Largo da Carioca (tem sempre algum tipo de árvore dando flores aqui no Rio: agora as paineiras, depois virão os ipês, fim de ano os flamboyants; sem falar na pata-de-vaca que floresce quase o ano inteiro)


Manutenção do Relógio da Carioca, que é da época do prefeito Pereira Passos


Estátua do Pequeno Jornaleiro, na Rua Sete de Setembro


Casa França-Brasil, que já foi Praça do Comércio, alfândega, tribunal do júri: projeto neoclássico de Granjean de Montigny, construção de 1820


A Candelária
Fotos do editor do blog.