21.11.06

CANÇÕES DE AMOR AO RIO


Berço do samba e das lindas canções...
(estátua de Braguinha em Copacabana)

CIDADE MARAVILHOSA (clique para ouvir na Rádio UOL; uma dica: use o botão direito do mouse e escolha "Abrir em uma nova janela")
André Filho

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil

Berço do samba e das lindas canções,
que vivem n’alma da gente.
És o altar dos nossos corações
que cantam alegremente.

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil

Jardim florido de amor e saudade,
Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade,
Ninho de sonho e de luz

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil


Deste céu, deste mar...


VALSA DE UMA CIDADE (clique para ouvir na Rádio UOL)
Antônio Maria & Ismael Neto

Vento do mar e o meu rosto no sol a queimar, queimar
Calçada cheia de gente a passar e a me ver passar
Rio de Janeiro, gosto de você
Gosto de quem gosta
Deste céu, deste mar, desta gente feliz
Bem que eu quis escrever um poema de amor
E o amor estava em tudo o que vi
Em tudo quanto eu amei
E no poema que eu fiz
Tinha alguém mais feliz que eu
O meu amor
Que não me quis



Copacabana, princesinha do mar...

COPACABANA (clique para ouvir na Rádio UOL)
Alberto Ribeiro & João de Barro

Existem praias tão lindas cheias de luz
Nenhuma tem o encanto que tu possuis
Tuas areias, teu céu tão lindo
Tuas sereias sempre sorrindo

Copacabana, princesinha do mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E à tardinha ao sol poente
Deixas sempre uma saudade na gente

Copacabana, o mar, eterno cantor
Ao te beijar ficou perdido de amor
E hoje vive a murmurar
Só a ti, Copacabana, eu hei de amar



Quando a minha vida era um brinquedo...
(do CD Cores da Minha Bossa)
Pery Ribeiro

Volto a caminhar na mesma rua
A contemplar a mesma lua
Que brilhou no meu passado
Quando a minha vida era um brinquedo
Quando todo o enredo
Da minha história começou
Volto e sinto o cheiro de saudade
E vejo que a felicidade
Era um Rio glorioso onde eu nasci
Era um Rio tão amável de sorriso e sol
Um Rio tão alegre com seu futebol
Um Rio tão feliz sem violência e dor
Um Rio onde a estrela Dalva
Emocionou cantando
Um Rio onde Herivelto
Compos a vida amando
A paz tão carioca
Em carnavais de muito amor

Nota: Música gentilmente enviada a este blog por Ana Duarte, esposa do Pery, que escreveu: "Nascida goiana, paulistana por muitos anos, e hoje morando em Miami; cultivo uma enciumada inveja do meu marido, um carioca da gema - o cantor Pery Ribeiro - por ter ele vivido todo o esplendor desse Rio dos anos 50 e 60. Quando escuto suas histórias desta época, bebo cada palavra, curto cada música, me deliciando com uma época de ouro. E sendo bem mais nova que ele, sempre brinco: nasci na época errada!"



Alô, moça da favela...

AQUELE ABRAÇO (clique para ouvir na Rádio UOL)
Gilberto Gil

O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro, fevereiro e março
Alô, alô, Realengo - aquele abraço!
Alô, torcida do Flamengo - aquele abraço!
Chacrinha continua balançando a pança
E buzinando a moça e comandando a massa
E continua dando as ordens no terreiro
Alô, alô, seu Chacrinha - velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha, Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha - velho palhaço
Alô, alô, Terezinha - aquele abraço!
Alô, moça da favela - aquele abraço!
Todo mundo da Portela - aquele abraço!
Todo mês de fevereiro - aquele passo!
Alô, Banda de Ipanema - aquele abraço!
Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço
A Bahia já me deu régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu - aquele abraço!
Pra você que meu esqueceu - aquele abraço!
Alô, Rio de Janeiro - aquele abraço!
Todo o povo brasileiro - aquele abraço!

Nota: Pressões inelutáveis levaram Gilberto Gil, em 1969, a deixar o Brasil e ir viver em Londres, justamente com seu companheiro de tropicalismo Caetano Veloso. Antes disso, porém, Gil compôs e gravou esse buliçoso samba de partido alto, no qual afirma que "meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço". Na ocasião, encarou-se essa composição — a derradeira antes da partida — como a despedida de Gil. (Abril Cultural, Nova História da Música Popular Brasileira, Gilberto Gil, 1977)


Braços abertos sobre a Guanabara... *

SAMBA DO AVIÃO (clique para ouvir na Rádio UOL - use o botão direito do mouse e escolha "Abrir em uma nova janela")
Antonio Carlos Jobim

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito prá mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Aterrar...

Fotos de Ivo & Mi, exceto a última, marcada com *, de Cantunes. Clique aqui para conhecer mais fotos de Cantunes.

9.11.06

QUINTA DA BOA VISTA

E O JARDIM ZOOLÓGICO
(com texto de Helio Brasil)



Quinta da Boa Vista em 1947
(época em que decorre o texto)


Gramado e lago


Árvores e lago


Pagode japonês

Caminharam então rumo à Quinta, vencendo o inacabado viaduto de São Cristóvão e logo entrando pelo portão dos fundos, o Seixas querendo apressar o passo, contido pelos protestos dos companheiros. "Calma, vai tirar o pai da forca?"


Antigo Palácio Imperial, atual Museu Nacional

Atingindo o alto da alameda principal, os rapazes podiam ver a Ilha dos Amores e seus visitantes domingueiros: os casais de namorados, a garotada saltando nas pedras rugosas, adultos jovens e maduros, alguns conduzindo crianças pelas mãos, atentos aos barcos que circundavam as margens de desenho irregular. Encostada a uma das colunas das falsas ruínas, Ana era fotografada por Sulamita enquanto Eva, a outra prima, pesquisava o lago, admirando a grande cobra de cimento que emergia das águas esverdeadas.




Dom Pedro II

Os rapazes desceram, ágeis, os degraus da escadaria que rompia a encosta gramada e cruzaram a ponte, com elegância e equilíbrio, desprezando orgulhosos o amparo do parapeito imitando troncos de árvore. As jovens repararam na chegada dos três companheiros, sobretudo Paulo, que refizera o nó da gravata vermelha com listras brancas, destacado no terno de tergal cinzento. [...] Simularam a coincidência do encontro. "Você por aqui?" Desnecessariamente, pois Eva e Sulamita sabiam do interesse da prima pelo jovem morador da Villa Elzira e adoravam o papel de confidentes e alcoviteiras, que afinal lhes reservava a aproximação com os dois amigos de Paulo. E no desmontado templo greco-romano, sob as precárias sombras das colunas dóricas e arquitraves de cimento, os jovens entregaram-se às brincadeiras e conversas propícias ao cenário de inocente romantismo.



Imperatriz D. Leopoldina (mulher de D. Pedro I)

"Vamos ao Parque Shangai?" A proposta, aceita com entusiasmo, foi feita por Ana e logo o grupo tratou de abandonar a ilha em fila indiana para cruzar de novo a ponte, quase uma pinguela em concreto simulando troncos cortados longitudinalmente. As moças exageravam os cuidados, obrigando os rapazes a guiá-las colocando-lhes as mãos delicadamente nos ombros e o expediente agradava sobremodo a Paulo Maluco, uma vez que o vestido de sua eleita tombava um pouco, deixando o ombro direito nu, expostas na pela alva inúmeras marquinhas douradas. Mais que direcionar a jovem, impedindo-a de tombar nas águas limosas, a mão de Paulo tentava esculpir o arredondado e tépido território sem que a dona mostrasse reação negativa. [...]



Jardim Zoológico: Papagaio-de-cara-roxa

Chegaram afinal ao topo e caminharam em direção ao museu, o eixo da alameda bem marcado pela enegrecida estátua do segundo imperador.[...] Tudo resplandecia, as sapucaias floriam e os pássaros cantavam. As campainhas de bicicletas faziam, em sons rascantes, o contraponto à algazarra das famílias, marinheiros e soldados flertando e dizendo piadas para as moças em bandos.



Jacarés

Céu imaculado deixava escorregar o sol a fundir-se em ouro banhando o cenário de alegria quando um carro negro, trepidando, insólito, surgiu na pista de asfalto juncada de folhas. Na direção, o mecânico Melânio testando o motor do Ford quarenta e dois; ao lado, aflito, atento aos ruídos da máquina, seu Jacó Pelcman. Deus e Jeová cochilaram bastante para que um dibuk fizesse engasgar o carburador e o carro veio parando, parando e parando até que o israelita surpreendeu a filha Ana, enlevada, ouvindo as palavras do Seixas, braço passado nos ombros da mocinha. Um metro e noventa de ira milenar deixaram o carro, olhos congestionados, o início da calva avermelhando-se. "O que faz você aqui com um gói?", e estalou a mão ampla, dedos roliços na face de porcelana. Emudeceram pássaros, campainhas, homens e mulheres. No silêncio talvez se ouvisse o pingar das lágrimas da jovem judia. [...] Lançou depois um olhar duro para o moço Seixas. "Filha minha não é para andar por aí com qualquer um". Entrou pesadamente no carro e bateu a porta. [...]


Diana, deusa dos animais selvagens e da caça

Na calçada, os circundantes voltaram à atividade lançando olhares de pena ou de zombaria sobre o rapaz que ficara tão imóvel quanto as colunas da ilha. Sentia-se mais petrificado que os rochedos cinzentos sobre os quais se sentara pouco antes em companhia de Ana. [...] Só conseguiu perguntar: "O que é gói? Que porra é essa?"

Um senhor grisalho que assistira à cena, ainda próximo, quase murmurando, explicou-lhe: "Você é de outra raça, meu filho". E irônico: "Se você fosse preto, seria pior!"


(Do maravilhoso livro de Helio Brasil, A Última Adolescência, um variado painel suburbano dos anos 40, Editora Bom Texto, págs. 172-4.)


Alameda de palmeiras


O lago ao entardecer


Museu Nacional ao entardecer

A Quinta e o Zoológico também estão na postagem COM HELIO BRASIL EM SÃO CRISTÓVÃO. Fotos de Ivo & Mi, exceto a primeira, do Acervo do Arquivo Nacional, que Helio Brasil usou na capa de seu A última adolescência