29.9.05

MUNDO INTERIOR (soneto de Machado de Assis)


Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
Do sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, - a natureza externa, -
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida,
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E, contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro
abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro
orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme.


Glossário:
Hidra de lerna - Serpente de sete cabeças, que renasciam assim que eram cortadas, morta por Hércules.
Armida - heroína da Jerusalém Libertada, de Tasso, mulher que fascinava pelos seus encantos


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6.9.05

PROGNÓSTICO

Alberto Carraz



— Vai dar merda!

Foi a única coisa que falou durante toda a reunião. Falou, não. Murmurou.
Como estava do lado, apenas eu ouvi. Fingi que nada tinha acontecido, qualquer reação minha poderia chamar a atenção para ele.
E toma falação. Nova estrutura da empresa, contratações de peso e demissões de toda maneira - justas e injustas.
Os que já estavam na companhia há algum tempo sentiram-se preteridos e desprestigiados. Mas ela continuou, ainda tinha muito a informar.
A estabilidade funcional na área de vendas seria determinada pela produtividade mês-a-mês. Metas atingidas, garantia de emprego.
Como teste de compreensão e agressividade de marketing, estabeleceu que cada um dos 18 vendedores, que a empresa chamava de "operadores de mercado" -- também gostavam de presepadas -- teria de vender dois automóveis por dia, nesta primeira semana. Que dessem o seu jeito. Que apelassem pra família. Que recorressem a amigos. Que procurassem por antigos clientes.
Fodam-se! Agora é política de resultados. Temos compromisso sério com a empresa!
Muito prazer em conhecê-los, bom-dia para todos e mãos à obra.
Naquele dia sobrou café na copa. Ninguém deu a costumeira passadinha antes de ir à luta.
Juvenal pegou seu cansado automóvel e, sem marcar visita, resolveu arriscar aquele velho e fiel cliente no outro lado da cidade. Nutria a esperança de, por ali, começar a escalada para a garantia de seu emprego.
Enquanto dirigia, ensaiava o discurso de venda. Procurava uma maneira de mesclar abordagem comercial com entremeios de amenidades, para que o papo ficasse menos pesado.
Tinha que dar o máximo de si. Oportunidade única de mostrar à nova chefe que ele era um dos melhores.
O sinal fechado aumentava-lhe o tempo de reflexão.
Porra, outro ambulante. Agora tem de tudo nos sinais.
Olhou com desinteresse, preparado para a negativa automática.
Que surpresa!
O cromado do revólver foi suficiente para que entendesse tudo.
Levantou a cabeça devagar e pediu calma ao meliante.

— Calma é o caralho! Abre logo esta porra e pula pra lá. Perdeu, meu camarada.

Explicou que aquele era o seu único bem. Mais ainda: seu instrumento de trabalho. Seu sustento.

— Porra, maluco. Tô ficando bolado.

Dois tiros e nada mais.
Sentiu que o mundo se afastava.
Onde estão minhas mãos? Cadê minhas pernas? Por que este silêncio?
E, num último momento de regozijo, achando que esboçava um sorriso, pensou: "Que bom! Estou liberado da meta desta semana."

Alberto Carraz é professor de língua portuguesa. Teve oportunidade de, por alguns anos, viver fora do Brasil. Por isso, dá muito valor a tudo que o país oferece. Com ressalvas, é claro.