23.8.05

RIO NUBLADO

Pão de Açúcar visto da Praia Vermelha

Os cartões postais mostram um Rio eternamente ensolarado. "Rio de sol, de céu, de mar", canta o "Samba do avião" de Tom Jobim. O sol é tão típico do Rio como o fog é de Londres e a garoa, de Sampa.
Mas quando chegam as chuvas de verão, noticiários de TV e jornais mostram um outro lado do Rio: ruas alagadas, desmoronamentos...
Entre esses extremos meteorológicos, um meio-termo menos badalado: o Rio nublado, que também tem seus encantos, sua poesia em tons cinzentos. O tempo ideal para longas caminhadas ou passeios de bicicleta: volta à Lagoa, pista Cláudio Coutinho, calçadão...
E tem mais: as fotos do Rio nublado, que você vê a seguir, dão excelentes "papéis de parede" de computador.

Baía da Guanabara

Botafogo visto da Urca (com o Corcovado encoberto)

Praia Vermelha

Colônia de Pescadores do Posto 6

Fotos de Ivo & Mi

20.8.05

DEZOITO ANOS SEM DRUMMOND

RELOGINHO, RELOGINHO
Carlos Drummond de Andrade

Reloginho, reloginho
embora apenas suplente,
bate bate direitinho,
bate bem rapidamente
a hora de meu bem chegar.
Mas se é hora de partir,
atrasa o mais que puderes
e não deixes nunca ir
a mais doce das mulheres.

Reloginho, compreendido?
Sempre teu, agradecido.

Do livro Poesia errante



DEZOITO ANOS SEM DRUMMOND
Edmílson Caminha
Especial para "Literatura & Rio de Janeiro"

Faz 18 anos que se foi Drummond, em 17 de agosto de 1987, exatamente doze dias depois que morrera a filha amada, Maria Julieta. A propósito da data, vem-me à memória não o poeta, o cronista, mas o brasileiro Carlos, o cidadão comum, igual a tantos outros homens e mulheres do seu tempo. Servidor público, foi Drummond, de 1934 a 1945, chefe de gabinete do Ministro da Educação, seu amigo e conterrâneo Gustavo Capanema. Não nos esqueçamos de que o Presidente da República se chamava Getúlio Vargas, que mantinha o governo sob rédea curta e administrava o Brasil com mão de ferro.
Como vemos, Drummond esteve, por onze anos, muito perto do poder e a poucos passos dos poderosos, e disso não se aproveitou para usufruir privilégios nem para fazer fortuna: viveu honrada e parcimoniosamente, com os ganhos de funcionário público e de escritor que colaborava na imprensa. Deixou para a viúva, Dona Dolores, a pensão devida e um bom mas nada luxuoso apartamento, na Rua Conselheiro Lafaiete, entre Copacabana e Ipanema, em que hoje mora o neto Pedro Augusto e onde já estive muitas vezes.
Se há quem hoje diga, em meio ao escândalo de mensalões, que participou de falcatruas apenas para receber dívidas, Drummond poderia ter prevaricado sob a desculpa de que, para os mortais, é duro resistir quando se está tão perto do tesouro... Não o fez, pelos princípios morais e pelos valores éticos que lhe nortearam a existência. Já dissera Machado de Assis: "A ocasião não faz o ladrão: faz o furto. O ladrão já nasce feito."
Assim, tanto quanto uma admirável obra, Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma lição e um exemplo: uma lição de vida e um exemplo de dignidade, com que honrou o Brasil e fez melhor o tempo que lhe foi dado viver.

Escritor e jornalista, Edmílson Caminha é o autor de Drummond: a lição do poeta (Brasília, Thesaurus, 2002).



Viola de Carlos Drummond de Andrade
Cyro de Mattos

Dos humanos desacordes
compuseste a tua viola
afinada atrás do tempo.
De tudo um pouco ensinas
na arte de ver a vida
além de tudo vinagre.
Esta pedra no meio
do caminho estrepa.
No que segue claro
me sinto menino, maior,
montanha, tamanho de José,
no que não se desvenda
oh, razão, mistério
ninguém acha escape.
E vozes mais das vezes
uma esperança perdida,
a morte do leiteiro,
um quadro na parede,
são alçapões do amor.
Ó da rosa radiante,
a que chamamos solitude,
palavra no ar, tuas mãos,
espantos, tantos espantos.

Do livro Os Enganos cativantes

16.8.05

HOMENAGEM A DRUMMOND

PORQUE MEU BEM FAZ ANINHOS
Carlos Drummond de Andrade


Porque meu bem faz aninhos
um raio de sol dourado
entrelaçou mil carinhos
pelo céu, de lado a lado.

Um ramo de beijos ternos
balançava sobre os ninhos
entre miosótis eternos
porque meu bem faz aninhos.

Porque meu bem faz aninhos
o rei, o valete, a sota
mais a fada e os anõezinhos
dançaram samba e gavota.

A nuvem mais cor-de-rosa
enfeitiçou-se de gatinhos
de bigode à Rui Barbosa
porque meu bem faz aninhos.

Porque meu bem faz aninhos
eu ganhei um chocolate
que tinha sete gostinhos
todos do melhor quilate.

Hoje eu brinco, pulo, canto,
assim como os passarinhos,
e mais eu canto me encanto
porque meu bem faz aninhos.

Do livro Poesia errante (1988)



E AGORA, POESIA? (trecho de matéria da revista Veja de 26 de agosto de 1987)

Em apenas doze dias, o poeta Carlos Drummond de Andrade esteve duas vezes no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Na primeira, o poeta mineiro, de 84 anos, enterrou a pessoa que mais amava, a filha Maria Julieta, de 57, vítima de um câncer generalizado. Cabeça baixa, olhos secos e atônitos, Drummond (...) disse: “Não tenho mais futuro, acabou tudo para mim.”
Doze dias depois, o poeta morto [às 20h45 de 17 de agosto de 1987] percorreu a alameda, conduzido no caixão pelos seus três netos e amigos.

A PALAVRA, NO MEIO DO CAMINHO (trecho de um dos raros depoimentos do poeta, concedido em janeiro de 1984 a Edmílson Caminha e publicado no suplemento literário do Diário do Nordeste).

Edmílson: Seus versos já viraram letra de música, enredo de escola de samba e tema de campanha eleitoral. Partindo-se do debate em torno do que é nacional e do que é popular na cultura brasileira, você se considera um poeta popular?
Drummond: Não, eu não me considero um poeta popular, não tenho essa pretensão. Claro que eu gostaria de ser, mas o conceito de poeta popular é muito ligado aos meios de comunicação de massa. Eu não tenho acesso a eles, a televisão jamais me contrataria para fazer um programa semanal. (...) 0 escritor de papel perde longe para os compositores e para os poetas chamados populares. Acho até que o poeta popular de cordel tem mais divulgação do que o poeta brasileiro dito de elite.



VISITA A DRUMMOND (do livro de Antonio Carlos Villaça, Os saltimbancos de Porciúncula).

Drummond não gostava de receber ninguém na sua casa. Muitas vezes, conversei com ele, no gabinete do MEC, uma espécie de furna com armários de aço, a isolá-lo do resto da sala.
Fui uma única vez ao seu apartamento, já no fim, dia 18 de setembro de 1985. E por motivos especiais. Maria Julieta, a filha única, fora eleita para o Pen Clube. E morava num minúsculo apartamento, na rua Barão da Torre. Seria impossível receber lá a diretoria do Pen Clube, para a comunicação oficial.
Drummond, solícito, resolveu que a reunião seria em sua casa, um sétimo andar na rua Conselheiro Lafaiete. (...)
Pois nos recebeu au grand complet, em grande estilo, um senhor coquetel, vários garçons, uísque, vinho, salgadinhos variados e até doces. Foi uma festa. O poeta caprichou. Amava tanto aquela filha, que morou longos anos em Buenos Aires.
O poeta estava feliz. Elegantíssimo, de camisa azul, paletó claro. Ia e vinha. como um perfeito anfitrião. Não propriamente à vontade, cerimonioso (como era seu feitio). Mas tão amável. (...)
Mais de meia-noite, Drummond acompanhou os visitantes até a calçada.

Trecho sobre Drummond na década de 1930 do 4o volume das memórias de Pedro Nava, Beira-mar

Era muito magro, mas extremamente desempenado, tinha o gauche que tornar-se-ia folclórico, um ar de orgulhosa modéstia (não sei se posso colocar juntas as duas palavras, entretanto não acho outras), aparência, à primeira vista, tímida, escondendo o homem dono de uma das maiores bravuras físicas e morais que já tenho visto juntas na mesma pessoa. Engana-se quem o julgar pela magreza e pelo franzino. Na realidade esse ser delgado é todo feito de tiras de aço, de couro, de juntas de ferro que servem o homem forte que ele é.

FOTOS DE IVO & MI: estátua de Drummond no Posto Seis; Edifício Luiz Filipe, Rua Conselheiro Lafaiete, onde morou Drummond (ver comentário de Edmílson Caminha).

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12.8.05

O SOCORRO & PRECIOSIDADES ENTRE TÚMULOS


O SOCORRO
Millôr Fernandes

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado.
A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia mais um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: "O que é que há?"
O coveiro então gritou, desesperado: "Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!". "Mas coitado!" - condoeu-se o bêbado. - "Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra toda de cima de você, meu pobre mortinho!".
E, pegando na pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.

Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se apela.

Publicado no site La Insignia em 5 de agosto de 2005.




PRECIOSIDADES ENTRE TÚMULOS

O cemitério Père Lachaise, em Paris, é dos pontos turísticos mais visitados da cidade. Lá, residem ilustres como Frédéric Chopin, Allan Kardec entre outros. Mais próximo de nós, o Cemitério de la Recoleta, em Buenos Aires, tornou-se parada obrigatória, desde que guarda os restos mortais de Evita Perón.

Pensando nos atrativos culturais que trazem turistas a estes locais, o professor Bayard Boiteux, diretor do curso de Turismo da UniverCidade, criou um programa de visitação para o Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Fundado em 1852, o Cemitério São João Batista é cravejado de suntuosos túmulos das famílias abastadas fluminenses. Entre os famosos, estão Afonso Penna, Luís Carlos Prestes, Carmem Miranda, Santos Dumont, Clara Nunes, Ary Barroso e Cazuza, além de condes e barões.

- A abundância de arte sacra, cuidadosamente esculpida em mármore e granito, nos dá a impressão de estarmos num museu e não num cemitério - observa a guia do programa, Ivonise Santos.

Na alameda principal, um festival de estátuas em bronze recebe o visitante. Os túmulos que beiram a privilegiada via podem custar mais de R$ 160 mil, segundo Ivonise.

Deitado à sombra de uma palmeira, como profetizou nos versos de Sabiá, figura a sepultura de João Francisco Lontra Brasileiro de Almeida Jobim (1979-1988), ou simplesmente, Tom Jobim. Sobre o mármore, as palavras do poeta: "Longa é a arte, tão breve é a vida". Do outro lado da ruela, réplicas da Pietá, São Miguel Arcanjo e São Geraldo atraem o olhar.

Próximo ao cruzeiro - monumento em cruz que marca as principais alamedas do cemitério - encontra-se um túmulo ousado: trata-se do mausoléu do pai da aviação, Alberto Santos Dumont (1837-1932), composto de uma imensa rocha de granito e uma estátua de um homem-pássaro. Mais adiante, aparece a assinatura de Carmen Miranda (1909-1955) estampada em seu túmulo.

O sepulcro de Ary Barroso (1903-1964), nos lembra famosas composições do artista: representações de Aquarela do Brasil e No tabuleiro da baiana. À direita, quase na Capela, flores coloridas velam o jazigo do poeta Cazuza (1958-1990). Sobre o tampo, a inscrição "O tempo não pára".

- Já vim ao São João Batista outras vezes. Gosto de conhecer esses lugares, são museus diferentes, a céu aberto - elogia o geógrafo Luis Roberto Nina, que já costuma visitar cemitérios.

Extraído do Jornal do Brasil de 12 de setembro de 2004.




Fotos do Cemitério São João Batista do editor do blog

9.8.05

CENA ESTRELADA POR RUBEM FONSECA (de Geneton Moraes Neto)



RIO DE JANEIRO, 2005


Os detetives dos livros de Rubem Fonseca são espertíssimos. Notam tudo. Quem navegou deliciado pelas páginas de um livro como Bufo & Spalanzanni certamente se surpreendeu com a argúcia dos investigadores criados pela imaginação de Fonseca. Mas lamento informar que o próprio Rubem Fonseca não é tão atento: não notou que eu segui seus passos sorrateiramente pelas ruas do Leblon. Fonseca nem desconfiou. O criador não é tão arguto quanto suas criaturas.
Faz pouco tempo: Rubem Fonseca estava na fila do Supermercado Zona Sul, na rua General Artigas. Sozinho. Anônimo. Silencioso. Usava um boné, não para se proteger do sol - porque já eram sete da noite -, mas certamente para se resguardar da investida de algum leitor inconveniente ou, pior, algum repórter intruso, como eu. O horror, o horror, o horror.
Pensei com meus botões: vou fazer uma foto de Rubem Fonseca, a Greta Garbo das letras, o homem que devota um consistente horror a repórteres e fotógrafos. O problema é que minha máquina - amadora - estava em casa. Resolvi acompanhar, à distância, a caminhada de Fonseca pelas ruas, na saída do supermercado. Quem sabe? Se ele passasse em frente ao meu apartamento, eu teria trinta segundos para correr, pegar a máquina lá dentro e voltar para a rua, a tempo de eternizar o flagrante num disquete.
Rubem Fonseca saiu do supermercado, entrou à direita na General Artigas, dobrou à esquerda na Ataulfo de Paiva e seguiu, anonimamente feliz sob a lua do Leblon. Guardei uma distância prudente: fiquei sempre a uns dez passos do homem, para não perdê-lo de vista. Não perdi.
Rubem parou diante de uma banca. Bela imagem: o homem célebre e solitário contemplava as manchetes dos jornais pendurados na banca como se fossem roupas num varal. Mas lamento informar que perdi a foto perfeita. Não deu tempo ir buscar a máquina.
O homem sumiu de vista, entrou à direita na rua General Urquiza, caminhou em direção ao mar do Leblon. O repórter ficou a ver navios.
É tudo o que Rubem, o fugidio, sempre quis.

CENA 1 de "TRÊS CENAS ESTRELADAS POR RUBEM FONSECA". As cenas 2 & 3 você pode ler no excelente site do jornalista Geneton Moraes Neto em http://www.geneton.com.br/archives/000118.html.


FOTOS DO LEBLON: Ivo & Mi