
O SOCORRO
Millôr Fernandes
Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado.
A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia mais um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: "O que é que há?"
O coveiro então gritou, desesperado: "Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!". "Mas coitado!" - condoeu-se o bêbado. - "Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra toda de cima de você, meu pobre mortinho!".
E, pegando na pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se apela.
Publicado no site La Insignia em 5 de agosto de 2005.


PRECIOSIDADES ENTRE TÚMULOS
O cemitério Père Lachaise, em Paris, é dos pontos turísticos mais visitados da cidade. Lá, residem ilustres como Frédéric Chopin, Allan Kardec entre outros. Mais próximo de nós, o Cemitério de la Recoleta, em Buenos Aires, tornou-se parada obrigatória, desde que guarda os restos mortais de Evita Perón.
Pensando nos atrativos culturais que trazem turistas a estes locais, o professor Bayard Boiteux, diretor do curso de Turismo da UniverCidade, criou um programa de visitação para o Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Fundado em 1852, o Cemitério São João Batista é cravejado de suntuosos túmulos das famílias abastadas fluminenses. Entre os famosos, estão Afonso Penna, Luís Carlos Prestes, Carmem Miranda, Santos Dumont, Clara Nunes, Ary Barroso e Cazuza, além de condes e barões.
- A abundância de arte sacra, cuidadosamente esculpida em mármore e granito, nos dá a impressão de estarmos num museu e não num cemitério - observa a guia do programa, Ivonise Santos.
Na alameda principal, um festival de estátuas em bronze recebe o visitante. Os túmulos que beiram a privilegiada via podem custar mais de R$ 160 mil, segundo Ivonise.
Deitado à sombra de uma palmeira, como profetizou nos versos de Sabiá, figura a sepultura de João Francisco Lontra Brasileiro de Almeida Jobim (1979-1988), ou simplesmente, Tom Jobim. Sobre o mármore, as palavras do poeta: "Longa é a arte, tão breve é a vida". Do outro lado da ruela, réplicas da Pietá, São Miguel Arcanjo e São Geraldo atraem o olhar.
Próximo ao cruzeiro - monumento em cruz que marca as principais alamedas do cemitério - encontra-se um túmulo ousado: trata-se do mausoléu do pai da aviação, Alberto Santos Dumont (1837-1932), composto de uma imensa rocha de granito e uma estátua de um homem-pássaro. Mais adiante, aparece a assinatura de Carmen Miranda (1909-1955) estampada em seu túmulo.
O sepulcro de Ary Barroso (1903-1964), nos lembra famosas composições do artista: representações de Aquarela do Brasil e No tabuleiro da baiana. À direita, quase na Capela, flores coloridas velam o jazigo do poeta Cazuza (1958-1990). Sobre o tampo, a inscrição "O tempo não pára".
- Já vim ao São João Batista outras vezes. Gosto de conhecer esses lugares, são museus diferentes, a céu aberto - elogia o geógrafo Luis Roberto Nina, que já costuma visitar cemitérios.
Extraído do Jornal do Brasil de 12 de setembro de 2004.


Fotos do Cemitério São João Batista do editor do blog