MARINHA 2
Isabel Corsetti
Espuma nas pedras da praia,
nós na toalha de xadrez.
Crianças e um cesto de santos,
gaivotas e fitas.
Vento de chuva, revirando telhas.
Nadar e amar na areia.
Tesouros, segredos, perdidos medos,
fogueiras e balões
sanfonas e cantos de viola
aguardente com limão
água de cheiro, roupas de algodão
peixe na pedra, farinha e pirão.
Agora hordas na orla, antes só nossa.
Tristes quiosques e pastéis,
tratores, conchas e estrelas do mar.
Construções, calçamento e cones,
gritos e o silêncio das ondas,
picolés e pizzas.
E o arrastão das tardes?
Ambulantes, camarão e coco?
Cores, cabanas e canoas?
Foram-se jangadas e pipas.
E nós na praia, mãos dadas,
pisando em algas
e siris.
Só maresia e saudade.
ÀS MARINHAS
Maria Thereza Noronha
Onda brincando na praia
em anágua de cambraia
dizei-me o que vistes lá
nos altos verdes do mar
se o vistes do branco barco
à proa, de algas ferido
se o vistes em vítreos olhos
de encapeladas espumas
Onda dançando na areia
véspera de lua cheia
dizei-me o que vistes lá
nas escarpas de alto mar
se em sonho transido o vistes
por encanto de sereia
mas ai, que o vistes luzido
e de regresso, dizei-me.
Do livro O verso implume (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 2005)
MARINHA
Lucia Aizim
No mar o coração entre vagas
No mar esperança entre vagalhões
No mar o amor emerge entre destroços
No mar dia e noite dão-se as mãos.
No mar os anjos trocam as asas
Duendes invadem os poços
e se desvanecem.
Afastado o sonho
ao alcançar a dura
superfície.
O amanhã resplandece.
Do livro Cânticos (Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000)
Fotos do editor do blog.